A Idiotização da Mídia Nacional (2000)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

E da imensa maioria das elites brasileiras. Emprego a palavra elite no sentido
genérico que é utilizado atualmente: pessoas letradas, políticos, altos funcionários
públicos, banqueiros, empresários, profissionais liberais, lideres sindicais, etc. Não
me refiro absolutamente ao povão, pois este nunca teve condições de discernimento,
memória e raciocínio. O Arraial de Canudos foi um bom exemplo. Esse resultado - a
idiotia generalizada - foi fruto de um longo processo histórico. Os primeiros sintomas
datam de "Diálogos das grandezas do Brasil" de 1618, de Ambrosio Fernandes
Brandão; "As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como la”;“Porque me ufano de
meu Pais", de Afonso Pena; Santos Dumont inventor do avião, etc.

0 coroamento desse processo provém dos anos 1970 no meio de um fortíssimo e
passageiro crescimento econômico, quando então as TVs, sobretudo a Globo,
solidificam-se como o grande instrumento de comunicação explorando o sentimento
de vitoria do tricampeonato mundial de futebol. A incipiente idéia de que éramos os
melhores do mundo ficava então definitivamente cristalizada. Em 1989 a tripulação
de um vôo Brasil ia da Varig, apesar de alertada por um sábio passageiro, mateiro,
derruba um Boeing e mata várias pessoas ouvindo um jogo fundamental para a
classificação do Brasil: Brasil x Chile, no Maracanã, nas eliminatórias da Copa do
Mundo quando então a Rosemeire, posteriormente alcunhada de a fogueteira, lançou
seu petardo sobre o goleiro chileno Rojas, ex-São Paulo.

Que coisa mais insana pensar que os melhores do mundo não participariam da Copa
de 1990. Depois, tivemos Senna e se a sorte nos acompanhar teremos o Guga,
Rivaldo e a Gisele Bündchen – esta, na verdade, um belíssimo espécime ariano. Num
passado não muito distante tivemos Pelé - o maior do século!-, Ester Bueno, Eder
Jofre – O galinho de ouro –, João do Pulo, Jorginho Guinle – quem, com seus 1.60m,
era o grande comedor das estrelas de Hollywood, etc. Alem disso, já havia aqui a
ideia de que Deus é brasileiro, baseada no argumento de que aqui não ocorrem
terremotos ou furacões, se bem que nunca alguém insinuou o lugar exato ou data do
seu nascimento, e menos ainda de seu filho, Jesus, como fez o Papa Gregorio XIII(?),
em 1582(?), com seu novo e atual calendário.

Um dos raros erros de Nietzsche - o de uma eventual necessidade humana de
geração de super-homens sofria aqui uma profunda metamorfose, ou seja, nós nos
tornávamos então num povo de super-homens. Muito mais de que os judeus que se
consideravam apenas o povo predileto de Deus. Este, o sentimento de grandeza. Na
Venezuela, esse sentimento se manifesta através de concursos de beleza, onde
mirabile dictu as venezuelanas sao sempre as vencedoras. Elas chegam ate a
disputar a presidencia da republica ao lado de coronéis. Nós aqui somos mais
sofisticados, pois reelegemos sociologos treinados em universidades francesas,
altamente reputadas no Norte da Africa. 0 "pequeno detalhe" é que aqui, assim como
na Venezuela ou Colombia, diferentemente dos povos que deram certo, nós não
temos futuro. Pobre America Latina, exceção talvez do Chile, condenada, assim como
a Africa, a mais profunda das negritudes.

A segunda faceta ou sintoma da idiotia nacional assim como na Colombia ou
Venezuela é a paixão por constituições hiper-extensas, pletoras de despautérios,
plenas de direitos e parcas em obrigações. Algo assim como se as letras de nossos
ilustres advogados - nesta terra de bachareis, oh..., saudades de Tancredo e Ulysses
- pudessem gerar, via retorica, riquezas e eliminar a pobreza e a miseria. Epigonos
de Vargas e Peron. Que intelligentsia! Nos nossos dias, o pais que mais deu certo, os
Estados Unidos, têm uma constituição de apenas 26 artigos contidos em cinco
paginas!

Outro sintoma interessantissimo na manifestação da idiotia da midia é sua
capacidade de transmitir ao pals a convicção de que aqui o fenomeno da violencia -
eufemismo para a guerra brasileira - é universal. A violencia seria terrivel ate mesmo
nos pacatos paises escandinavos. É muita procacidade, canalhice mesmo, perdoem-
me a franqueza. Os assassinatos provocados por adolescentes doentios ou outros
psicopatas no Primeiro Mundo são fantasticamente multiplicados pela midia de tal
forma a gerar a convicção de que o fenomeno é universal. Chacinas - as vezes,
praticadas por 60 homens, como recentemente no Rio – , superpopulação carcerária,
assaltos a onibus, estiletes e mortes nos presidios, sequestros-relarnpagos, ações de
superquadrilhas, resgate de presos, "desaparecimento inexplicavel" de 340 kg de
cocaina purissima de dentro de uma delegacia - Campinas - seriam fenomenos
universais. Se tivesse ao menos a honradez de se referir a Colombia ou Jamaica.

0 mesmo fenomeno se da com relação a corrupção. Um escandalozinho na Alemanha
é elevado a enésima potencia de forma a caracterizar o fenomeno como universal e
inexoravel. E as elites tais quais sabias avestruzes creem piamente nisso. Como
comparar nossa situação, com corrupção galopante e cada vez mais democratizada
após 1985, com excentricidades do Primeiro Mundo?  Ou então, itens da agenda dos
paises civilizados sao incorporados aqui como no caso do PV, comandado por um
novo Gabeira, sem tangas, porém, ardente defensor da importação de maconha,
como se tratara de um produto escasso no mercado nacional. Preponho que se
levante a bandeira, junto ao governo americano, para que ele conheça Manhattan.
por tratar-se de prioridade nacional, além do sonho pessoal do ilustre deputado.

Aqui, o Estado de Direito encontra-se semidestruido e em estado de guerra. Na
Colombia o comportamento da midia deve ser identico. Alem disso, a midia como se
tratara de materia paga, porem, aparentemente sem o ser, ainda que os gastos
publicos com publicidade no subcapitalismo brasileiro são fantasticos, incorpora o
discurso do governo de turno. Hoje, por exernplo, ela  faz em relação ao desemprego:
o mesmo tratar-se-ia de urn fenomeno da "globalização" e automação. Que horror
quando inventaram a enxada e, posteriormente, a maquina a vapor! Curiosamente, os
EEUU, a maior economia do mundo, apesar dos milhares de brasileiros imigrantes e
outros latino-americanos, vivem um dos seus mais longos periodos de baixo
desemprego e altissirno crescimento nos últimos trinta anos. Provavelmente, a
revolução tecnologica seja apenas um fenomeno tucano e local!!! Cabe ou n5o cabe a
dura palavra idiotia?

0 atual estagio da idiotia nacional materializou-se na paixao pelos escandalos e
misterios , sobretudo os politicos-financeiros via CPIs e seus gabolas. A industria das
denuncias proliferou embasada sobretudo na alta densidade de marxismo nas nossos
redações. Como 98% desses processos terminam em nada gerou-se a metáfora do
"terminou em pizza", criando a sensação de impunidade geral e irrestrita.Na verdade,
na maioria das vezes, coloca-se pizza no forno e, obviamente, depois de certo tempo
e temperatura obtém-se pizza. As fantasias se desfazem. Esse processo desencadeia-
se a partir dos anos 90, via impeachment de Collor, quando então surge a "figura
diabólica" do sr. PC Farias. O demonio foi então redescoberto. Como exorcizá-lo?  Sua
presença na midia foi tão importante que, talvez, tenha sido a primeira sigla a ser
utilizada na mídia escrita – PC, anterior inclusive a FIIC e ACM.

A etiologia desse processo sugere como um dos fatores fundamentais o
aprofundamento da ideologia das telenovelas. Elas se tornaram tão sofisticadas que
se utilizam de pesquisas de opinião para conduzir suas tramas em consonância com
os desejos da idiotia nacional. Quem Matou Odete Roitman?,  novela das oito da
Globo, foi um excelente exemplo. Que grande "serviço" a mídia passou a prestar a
nação no seu afã de exorcização,  no meio de um Estado semidestruido, onde a
corrupção nao apenas campeia, como se democratizou a partir de 1985. Hoje, ate
nossos mensageiros, ou os fiscais de menor rango, encontram-se corrompidos.

As TVs com seus ancoras, galvões buenos, o lindo casal do JN, xuxas, boris, autores
e atores de novelas, faustões,  malandros, surgem como o novo fator essencial na
manipulação da idiotia nacional. Posteriormente, houve o aperfeiçoamento do
nefasto, ate aqui, como os ratinhos, tiazinhas e shows-missas com seus padres
cantores, etc. Multiplicam-se também, com extrema abundancia, as novas seitas
evangélicas como a Universal do Reino de Deus, frutos da desesperança do povo na
sua busca de empregos. Elas se multiplicaram tanto aqui que hoje, ao lado de
prostitutas, travestis e jogadores de futebol, são um importante item na nossa pauta
de exportações.

A partir de então, se desenvolve um processo curioso de simbiose mídia--elite. Para
manter o lbope ou a venda de jornais, a midia fornece a matéria-prima que essas
pobres mentes doentias necessitam para manter suas fantasias a respeito de
escândalos e mistérios, "queimas de arquivo e acerto de contas", etc. Isso tem
funcionado como urna diversão - na linguagem militar - ou boi de piranha - na
linguagem de nossos antepassados bandeirantes - para distrair a elite do verdadeiro
problema que é o do crescimento econômico e igualdade social - no sentido de renda.
Mal sabe a midia -- oh... sr. Marinho - e as elites financeiras que, por mais que suas
burras estejam cheias, o negócio não é bom. Ser rico entre miseráveis, não é bom
negócio.

A compreensão desse processo só me surgiu a partir da morte do sr. PC Farias, em
1996.As primeiras noticias me pareciam claríssimas: o sr. PC havia sido morto fruto
da sua solidão e falta de cultura.  Suzana Marcolino foi apenas o braço mecânico de
sua morte. Solidão, pois ele, viúvo, encontrava-se preso, cumprindo sua pena quando
conheceu aquela garota de programa especializada em políticos alagoanos. Falta de
conhecimento pois não soube identificar tratar-se a moça de urna potencial suicida. A
falta de conhecimento, quase sempre, conduz à tragédias. Que falta faz na vida
alguns conhecimentos rudimentares de psicanálise. Mas, a midia queria o que a elite
idiotizada queria ouvir: sons melífluos de mistério, queima de arquivo, etc. Crime
passional é tão prosaico. No mesmo instante, a TV-Globo descobriu um legista, o Sr.
Sanguinetti, nome derivado de sangue e corn uma confinação facial tao similar a dos
psicopatas, que sem nunca ter ido ao local do crime ja tinha elaborado seu "laudo".  

Pronto! , o circo estava armado e sabe-se lá por quantas décadas do porvir ele assim
permanecera. Os imperadores romanos, no coliseu, jogavam os cristãos aos leões
para a diversão do povo. A "grande idéia" era que o povo necessitava alem de pão,
circo. Aqui, aquela ideia foi "aperfeiçoada": muito circo e pouco pão. A Folha de Sao
Paulo, recentemente, ganhou o Premio Esso de Jornalismo por ressuscitar tão
"relevante" questão para o futuro nacional.

Hoje, os donos do poder no Brasil divertem o povo e, sobretudo, as elites com as
sues CPIs e seus gabolas. Pobres dos srs. Chico Lopes, Augusto Farias, Badan
Palhares e Xandê Negrão! 0 espirito de denúncias petista de nossas redações
generalizou-se. Grande Janio de Freitas! Para não falar dos ex-donos da extinta
Escola Base na Aclimação, SP. Fatos como esses, provavelmente, geraram no
Congresso a necessidade de certo comedimento e la tramita nesses dias um projeto
que proibe juizes, procuradores e policiais de fornecer dados a imprensa durante as
investigações de um processo – a imprensa pejorativamente o qualificou, desde o
primeiro instante, de lei mordaça. Dificilmente essa lei será aprovada, mas mesmo
que o seja ela não "pegará”, pois a idiotia nacional se sobrepõe a tudo. Bern
assentia Getulio: "a lei, ora a lei".

Desde o século passado criamos leis "para inglês ver" corno no caso do trafico de
escravos; estas não são para valer, rnas, sim, figuras de retórica ao gosto de otários
como a lei Camata ou da Responsabilidade Fiscal, atualmente em elaboração. A
mídia tornou-se aqui o Supremo dos Supremos. Ela pré-julga e sempre condena, para
a alegria do povão e das elites, os "criminosos de turno".

Esse novo "Judiciario" que já era uma excrescência galgou planos ainda mais
elevados. Todos são jogados na niesma vala comum junto com os criminosos. Pouco
importa que se destruam honrens, reputações, seus negócios e, sobretudo, suas
familias. Vale a pena, pois o povo quer diversão, escândalos, e a niidia, fruto desse
estrupício – Leviatã? – do subcapitalismo brasileiro, vender. Um aspecto interesante
é que ela não  sofre como nós humanos e de formação crista do sentimento de culpa
nem de ética.  Hitler explorou a idiotia do povo alemão com seu anti-semitismo
histórico. Detalhes trágicos, porem, passageiros, da história do Primeiro Mundo. Por
aqui, a coisa é muito mais grave, pois, aparentemente, o fenômeno parece eterno.