Água e  Desperdício (2000)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

A atual e gravíssima estiagem me traz a lembrança velhas batalhas perdidas, entre elas a
de tentar banir nesta cidade de Campinas o uso dessa famigerada válvula fluxível, de
fluxo, mais conhecida como válvula Hydra – marca predominante nesse mercado. Cada
descarga e lá se vão 20 ou 30 litros de água!

Campinas seria um exemplo para o país ou no mínimo levantaríamos um debate nacional
sobre a questão. Será que teremos água suficiente para girar nossos motores no próximo
ano com os atuais níveis de nossas represas? Fechamos 1999 com apenas 20% da
capacidade de nossas represas.

O sr. Antônio Ermírio de Moraes escreveu recentemente que tudo está nas mãos de Deus e
de São Pedro. Quando a burrice pega a saída parece ser procurar razões esotéricas.
O desperdício é próprio do subdesenvolvimento e uma das características fundamentais do
Terceiro Mundo. Posso observar isso, entre outros inúmeros aspectos, em relação ao
consumo de água potável no Brasil.

Há alguns anos um amigo, numa mesa de happy hour, comentava que estava reformando
seu apartamento e colocaria nos seus banheiros novas válvulas Hydra. Afirmei
peremptoriamente: válvula Hydra é coisa de índio!. Dentre outros amigos que nos cercavam
se encontrava meu querido e falecido amigo Fiinho Tella - colega de universidade e um dos
fundadores da “falecida” BHM nesses duros tempos do Real - e um vereador. Fiinho
indignado me respondeu : Zininho, você pode até entender de marcenaria mas de
construção entendo eu.

Acontece que eu havia vivido cinco anos na Suécia onde essa válvula havia sido banida há
muito tempo, aliás como em todo o Primeiro Mundo. Por quê? Ora, ela é fonte de
incalculável desperdício de água e perigosa do ponto de vista higiênico via refluxo.
Felizmente, os hospitais locais a proíbe. Como o vereador se mostrou interessado pela
polêmica me propus a  estudar a questão. Durante aproximadamente seis meses, nas
horas de lazer, dediquei-me à pesquisa. Eu estava mais do que certo.

A caixa acoplada é a solução racional e os países civilizados, mais uma vez, tinham razão.
Infelizmente, nesse reino da irracionalidade nosso vereador já havia desistido do projeto
apesar do meu extenso relatório. Enviei-o a um outro vereador a quem havia apoiado na
esperança de levar o projeto a cabo mas tudo em vão.

Talvez, o estudo demandasse muitas horas de leitura, coisa não muito apetecida nessas
paragens ou então, na percepção desses senhores, os dividendos eleitorais não seriam
interessantes. Alguns poderiam até interpretar o projeto como uma disputa comercial.

No seu gênio criador o alemão, criador da válvula fluxível,  raramente faz asneiras, mas
quando as faz, as faz para valer - outro bom exemplo é o fusca com motor refrigerado a ar
que se tornou paixão de um ex-presidente mineiro, topetudo e com vocação a Casanova –
vide Liliam Ramos, tenente de PM, etc.

Muitos estudiosos afirmam que a água doce  no século XXI será tão importante como  foi o
petróleo no século XX. De fato,  ao retornar de uma recente viagem à Suécia, minha filha
me contou que as atuais caixas acopladas são providas de dois comandos, a saber, um
para o xixi e outro para o cocô. Que sabedoria!    
.      
Desde outubro de 1999 eu e outro amigo mateiro - Alceu Corsi -  comentávamos sobre a
gravidade da falta de chuvas e a necessidade de se precaver para o futuro. É muito triste
pensar que essas válvulas fluxíveis continuam fazendo estragos e ver, nesse momento,
pessoas lavando calçadas e carros!