| Perdão, Breno (1997) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email: josinomoraes@hotmail.com Infelizmente, sinto-me parcialmente culpado. Breno é meu filho temporão,de 10 anos. Por que devo-lhe desculpas? É simples, seu avô deixou-me um país melhor do que o que devo deixar-lhe. Alguns poderão argumentar que hoje temos televisões, computadores, celulares, etc.. No entanto, a qualidade de vida no Brasil caiu substancialmente sobretudo nos últimos quinze anos. O estoque de bandidos tem aumentado em progressão geométrica insinuando uma tendência trágica para o futuro do país. O bandido transformou-se numa espécie de anjo-da-guarda às avessas, sempre presente. Uma distração mínima e você percebe sua existência. Pari passu, o stress tornou-se um elemento permanente do nosso cotidiano. Se no passado, o lugar comum era: primeiro a saúde e depois o demais, hoje, o mesmo deveria ser: em primeiro lugar a vida, condição sine qua non para a saúde. Minha parcela de culpa, Breno, é que realmente fui contaminado na juventude por essa terrível epidemia que grassou neste século, em grande parte do mundo e com bastante intensidade à América Latina. Seu nome: marxismo-leninismo. Podia-se até reforçar este pomposo nome com: pensamento de Mao Tse-tung. Se a revolução russa já exercia seu fascínio sobre grande parte de nossa intelectualidade, a revolução cubana foi mortal. No princípio, parecia-nos que a eliminação da pobreza, causa primária da bandidagem, e objetivo maior de todos os homens de bem, apesar dos marxistas se arrogarem o direito de seu monopólio, era algo viável, e em curto prazo. No entanto, o comunismo mostrou-se completamente incompetente para essa tarefa. Esse foi um século complicado. Talvez por tratar-se do último em que a humanidade teve de suportar tantas desumanidades. Hoje, no limiar do século, restam apenas pequenos bolsões contaminados por essas idéias estapafúrdias, como é o caso atual da embaixada japonesa em Lima. Nós, brasileiros, como sempre lerdos para enxergar o futuro, continuamos com um vasto contingente ainda contaminado. O mais grave é que grande parcela se encontra em setores estratégicos, como é o caso da mídia. Mas, como hoje, os ventos do oeste são mais fortes que os do leste (inversão do raciocínio de Mao), sua importância tenderá a decrescer e a exercer um papel apenas residual. Nos anos 60 em Assis, SP, estacionávamos o carro aberto e com a chave no contato. Não havia absolutamente nada dessa parafernália eletrônica para defesa patrimonial e física. Lembro-me que, de certa feita, Roberto Rammert após várias rodadas de cerveja, levou-me o candango-DKW, motor 2 tempos. Claro, estavam próximos e eram parecidíssimos. Fui embora com o dele. Felizmente, após o almoço e sesta desfizemos o equívoco. Em Campinas a situação não era nada diferente. Ao ouvir meu relato acima um amigo contou-me que em certa oportunidade o médico Alexandre Khouri, vendo que sua cirurgia se estenderia noite adentro, e com compromissos logo pela manhã do dia seguinte, pediu a um auxiliar para retirar seu Chevrolet 51 próximo do cine Voga, na Av. Anchieta, e deixá-lo estacionado na garagem de sua casa. Qual sua surpresa, na manhã seguinte, o carro não era o seu! Eram os anos dourados das serenatas, cafés para os que excediam na bebida e bailes que varavam a madrugada. No Brasil atual, os níveis de criminalidade e violência são assustadores e, o que é pior, sua tendência horrorosa aponta para um permanente crescimento. Faz-se necessário revertê-la, para logo lutar afim de que voltem a níveis cada vez mais baixos. Não somos um país com predileção por dados estatísticos, o que dificulta nossa exposição. No entanto, alguns "sueltos" que encontramos na imprensa nos levam a afirmar, sem sombra de dúvidas, a veracidade de nossa afirmação acima. Sobretudo no caso de delitos graves. Utilizamos a palavra assalto apesar dela não ter conceito jurídico. A dificuldade do direito brasileiro em progredir e adaptar-se às mudanças que a vida traz é tamanha que apesar de não incorporar o conceito de assalto ele conserva o da "sedução de marinheiro" vigente nas cortes européias entre os séculos XIII ao XIX para punir capitães de navios que cooptavam jovens para suas tripulações mediante violência física ou ameaças! Vejamos alguns exemplos: - Nos últimos 15 anos triplicou-se o número de homicídios no país. - O roubo de cargas no Estado de São Paulo apresenta a seguinte performance: jan-nov95, 263; jan-nov96, 318 num ligeiro aumento de 22%. - Pai-de-santo brasileiro exporta tecnologia e é o mentor do maior assalto do século na Argentina. - O estoque de mandados de prisão "na gaveta" aumentou 75% no último ano (1996) em São Paulo. Em particular, em Campinas, anotamos: - O número de assaltos aumentou 57% no ano de 96. - Os assaltos a bancos mostram a seguinte progressão: 94 -12 agências 95 -32 agências 96 - 82 agências - Assaltantes de bancos após o delito comemoram dando tiros para o ar. A agência do Forum é assaltada! Chega a parecer como se os bandidos quisessem espezinhar a ordem legal da Nação. - Os assaltos a ônibus atingem a média de 2 por semana. Nestes primeiros dias de 1997, em Campinas anotamos os seguintes fatos: - As cadeias superlotadas registram 5 motins. Advogados criminalistas acionam o Estado e chegam ao seguinte extremo: "Tentar fugir destas cadeias, verdadeiras pocilgas, é legítima defesa"(sic). - O número de homicídios atinge a média diária de 2,1 contra 0,6 dos anos anteriores, ou seja, 3 vezes mais. - Técnico da CPFL é assassinado diante da mulher e filhas pequenas, às 20 horas, numa importante avenida local. Motivo: a motocicleta modelo 96. Seriam estes fatos subprodutos naturais do que uma parcela da mídia no final de 1996 vem chamando de novo milagre econômico brasileiro? Dois são os parâmetros do raciocínio nacional quando o tema é criminalidade e violência. Aqui, como em outros debates, equacionam-se os problemas pelo método de falsas analogias, quando não ao extremo de supostas igualdades, anulando-se assim as possíveis soluções. Cita-se a cidade de Nova York ou outras grandes cidades americanas, apesar que seus índices de criminalidade vem caindo sistematicamente, como exemplos do "lá também tem". São exceções únicas no universo do Primeiro Mundo. Lá, além do histórico problema racial, que vem se agravando com uma emigração maciça de pobres da América Latina, o contingente mineiro é componente importante nestes últimos anos. No passado recebíamos emigrantes econômicos, hoje, grande parte do nosso povo emigra para os EUA, Japão e Europa em busca do pão. Dois pequenos aspectos podem se observar: primeiro, colaboram para uma queda da taxa de aumento populacional, a qual estaria hoje em torno de 1,4% ao ano; segundo, estes emigrantes enviam milhares de dólares de inestimável ajuda para o equilíbrio de nossas contas externas. E de quebra, financiam uma parte do aumento do consumo. O que num sistema de votos soa como canto de sereia. O segundo parâmetro do "lá também tem" são os casos horrorosos, como recentemente as crianças no interior da França. São problemas de psicopatia. Estes só serão definitivamente resolvidos quando o homem entrar para a verdadeira civilização ou seja, quando não existir absolutamente nenhuma arma de fogo na face da Terra. O psicopata terá de contentar-se com um sarrafo e então será mais fácil contê-lo. Qual a causa fundamental, a raíz da violência criminal? Sem dúvida, a falta de oportunidades de trabalho (Não me estenderei sobre causas secundárias, como drogras, Colômbia, etc). Como eliminá-la? Há um único remédio historicamente conhecido: o crescimento econômico. E, nestas últimas décadas, e para países similares ao nosso, sabe-se que seu motor, seu oxigênio, é a exportação. Então, não deveria ser este o objetivo maior de nossa sociedade? E a polícia? Nos casos de Estados economicamente saudáveis funcionam como um instrumento de forma a inibir, coibir, controlar e punir a criminalidade. No entanto, nossa tragédia é tão grande que nosso Estado encontra-se em condição pré falimentar (nos últimos 30 meses triplicou a dívida pública!) e portanto, parcialmente impossibilitado de tais tarefas. A polícia e a justiça, funcionam, quando podem, como administradoras desta dificuldade,porém jamais eliminando as causas fundamentais do fenômeno. Enfim, Breno, o Brasil precisa mais que nunca voltar a crescer, eliminar o desemprego, a miséria e a geração de bandidos de alta periculosidade. Faz-me graça quando alguns espíritos talvez mais por safadeza que por desconhecimento, comparam nossos índices de desemprego aos europeus. Na Suécia, por exemplo, existe o Socialbyrä. O cidadão desempregado vai até lá uma vez por semana e diz: preciso de uma quantia para o aluguel, de uma quantia para a alimentação, etc.. Ok, se até a próxima semana o senhor não tiver resolvido o seu problema, sua volta será benvinda aos nossos escritórios. Comparar alhos e bugalhos, como diziam nossos antepassados portugueses, não me parece de bom tom. Se não podemos crescer 10% ao ano, como o fizemos nos anos 70, pelo menos 6 ou 7%, de forma sustentada, como foi nossa média histórica nos primeiros 80 anos deste século. O nhém nhém nhém dos 3% não dá. A onomatopéia faz-me lembrar da infância quando as baterias eram fracas e utilizávamos uma manivela para fazer "pegar" o motor e o papai da cabine gritava: cuidado com o contra-golpe! Neste passo só aumentaremos o estoque de trabalhadores brasileiros no exterior, desempregados, favelados, bandidos, presidiários, sem-terra, sem-teto e os níveis de assassinatos, seqüestros, assaltos, etc..A propósito, que saudades dos batedores de carteira dos anos 60! Não deixou de ser indigesto no final de 1996 ver o governo e seus acólitos anunciarem um novo milagre econômico brasileiro. A propósito, em 1996, ano do propalado aumento do consumo de iogurte e frango, o consumo per capita de frango caiu! |