| CÂMBIO e INFLAÇÃO (1997) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email:josinomoraes@hotmail.com Qual o mistério desta relação ? Alguns economistas tem argumentado com bastante brilho intelectual que não há uma relação direta, causal, entre câmbio e inflação. Mudanças no cambio influem diretamente no nível dos preços domésticos ou vice-versa? Trata-se, evidentemente, de uma controvérsia importante para o debate nacional. A experiência histórica demonstra que não apenas o Brasil mas grande parte da América Latina utiliza-se do expediente do congelamento cambial para resolver o fenômeno inflacionário. Curiosamente, os fracassos somam 100%. De qualquer forma, vou ater-me ao caso brasileiro. Suponhamos uma economia em equilíbrio (interno e externo) e com uma relação de câmbio de US$1.00 = L$1.00 (L=moeda local). Devido a algum distúrbio, a moeda local sofre uma desvalorização de 1%, ou seja, US$1,00 = L$1,01. Os produtos importados ficam 1% mais caros. Supondo todas as demais variáveis relevantes para o nosso raciocínio (produtividade, etc), constantes, os produtos exportáveis não sofrem modificação alguma em seus preços. No entanto, houve uma pequena revolução nos preços relativos. Como, por definição, a inflação e a elevação de um índice geral de preços (no nosso caso ao consumidor), o impacto da desvalorização ficaria por conta do peso relativo dos preços dos produtos importados na elaboração deste índice. Para a grande maioria dos países. este peso significa uma pequena parcela. Cabe ressaltar que a elevação dos preços dos importados abre espaço para uma maior participação dos produtos locais, o que insinua a possibilidade de uma economia de escala e em consequência uma tendência de baixa para os preços locais, tendendo portanto a anular o efeito inicial (supondo-se que nenhum insumo importado tenha um peso considerável na formação dos preços domésticos). O estimulo da elevação de preços para o setor exportador poderia dar-se em dois cenários: a) capacidade produtiva ociosa, b) utilização total da capacidade produtiva (pleno emprego). Na hipótese a), que prevalece em 98% dos casos, não há nada que leve a raciocinar por uma elevação de preços. Na hipótese b), a oferta interna tenderia a contrair-se abrindo a possibilidade de um movimento ascendente de preços. Devido ao distúrbio inicial, a balança comercial tenderia ao desequilíbrio, excesso de dólares ofertados pelos exportadores em relação aos demandados pelos importadores. Logo, supondo-se um câmbio livre, o mesmo tenderia a retornar a sua posição de equilíbrio inicial. Este é o raciocínio básico, sem absolutamente nenhuma filigrana da teoria econômica, para uma economia capitalista, desenvolvida, onde, o Banco Central interfere em raras situações nas relações de câmbio e quase sempre para enfrentar emergências. Analisemos agora o distúrbio em questão no caso do subcapitalismo brasileiro. Em primeiro lugar, as mudanças aquí nunca são diferenciais, logo, vamos supor uma mudança no câmbio da ordem de 10%. Vamos supor também um pequeno sonho de racionalidade: déficit público zerado, políticas fiscal e monetária responsáveis, em poucas palavras, um céu de brigadeiro abaixo da linha do equador. A exposição acima continua válida, porém existe aquí um elemento complicador fundamental: a Petrobrás. Se a economia mundial mostrou em duas oportunidades, em 1974 e 1979, sua grande dependência em relação ao petróleo e seus derivados, para a economia brasileira estes são cruciais. Não e por acaso que devemos ser o único país no mundo a ter um Proalcool. Nossas ferrovias são insignificantes no transporte de cargas. Fundamentalmente, o óleo diesel é o supra-sumo dos insumos nacionais. Qualquer mudança no seu preço funciona como um alerta para o sistema de preços e libera ipso fato uma reação em cadeia mexendo com toda a estrutura produtiva nacional. Funciona como uma chispa numa pradaria seca. A Petrobrás produz 900.000 (65%) e importa 500.000 (35%) barris diários de petróleo. A suposta desvalorização de 10% deveria ser repassada para os preços internos em apenas 3,5% (partindo da premissa que a Petrobrás utilize seu próprio petróleo como insumo) ou bem, uma redução de custos poderia absorver estes 3,5%. O "probleminha" seria convencer os seus 50.000 funcionários desta necessidade em função de interesses maiores da estabilização monetária. Além dos salários, os fundos de pensão também estariam em jogo. O verdadeiro mistério entre câmbio e inflação é que existe um terceiro elemento formando um triângulo: a Petrobrás. Os tucanos certamente o intuem mas não o expressam. A atual sobrevalorização e congelamento cambial não serão eternas e a inflação (que de um modo geral o economista "brasiliano" a define de inercial, trazendo nada menos que da física de Galileu e Newton o conceito de inércia) retornará saudável e vigorosa nos braços da Petrobrás como uma velha e antiga figura do menino Jesus. Enquanto existir a Petrobrás e um único barril de petróleo importado, este balizará os preços domésticos. Esta é a tese senhores, sem absolutamente nenhuma filigrana. |