O  Encilhamento  Tucano (1997)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

A pergunta mais intrigante da atualidade, para a pequena parcela lúcida do
país, é: conseguirá o governo tucano conduzir o atual congelamento
cambial, com sua natural solidariedade com o sistema de engessamento de
preços (inflação de um dígito ), tirando de letra a vitória nas urnas em
outubro de 98? Ou o fôlego será insuficiente para tal proeza, dificultando
assim o sonho de continuidade?

A propósito, a lembrança me traz a memória, uma fria manhã de inverno
junto a um amigo de nome David Joly, veterinário norte-americano. Ele
dispõe de uma pequena pista de treinamento para cavalos de corrida. Ao ver
sua concentração na passagem do cavalo frente ao nosso posto de
observação indaguei, com minha soberba ignorância: Você está preocupado
com o coração do potro? Ele explicou-me: Absolutamente não, estou
observando o desempenho dos seus pulmões! Esta a grande questão.

No início da República, em torno de 1890, vivemos um momento  político  e
econômico que ficou conhecido como Encilhamento. A palavra provém do
jargão próprio dos aficionados às corridas de cavalos. Encilhar o animal ou
seja, fixar a sela sobre seu corpo, é um dos últimos passos para o canter e
posterior largada. É o ritual do preâmbulo para o grande momento. A
pré-condição para a vitória é : "larga-se bem ou mal".
   
Havia no ar a idéia de que a República vivia, ou preparava-se, para um
próximo período de grande expansão econômica. Os decoradores de
interiores de então magnificavam este clima e transmitiam a mensagem que
a República seria o reino dos negócios. .  As bolsas viviam espasmos febris.
Rui Barbosa, ministro da Fazenda naquela época, baixou vários decretos no
sentido de permitir uma forte expansão na oferta da moeda e crédito. O
espírito dominante era o da jogatina. No início de 1891 veio a débâcle.

O preço das ações despencaram,os estabelecimentos bancários e empresas
faliram, etc. O FMI só não se fez presente, pois ainda não havia se
constituído à época! A moeda sofreu forte desvalorização frente a libra
esterlina. Apesar desse excesso de euforia, na época, é sempre bom frisar,
a economia caminhava bastante bem em relação aos dias atuais. O café, "o
ouro silencioso" no dizer de Cendrars, era a locomotiva do vigoroso setor
exportador e com ele, os capitais privados construiam inúmeras malhas
ferroviárias que posteriormente viriam a ser destruídas com a criação da
FEPASA.

O grande gargalo para a exportação cafeeira era a dificuldade de se chegar
aos portos e com isso não apenas houve a grande expansão ferroviária
como, a posteriori, ela implicou na modernização do porto do Rio de Janeiro
e o conseqüente desdobramento na  reforma urbana, na brilhante
administração de Rodrigues Alves,
   
Porque a idéia de um novo Encilhamento? Ora, o velho espíríto da jogatina
está de volta. Aposta-se tudo no projeto da reeleição. Não há a mínima
preocupação com o destino de milhões de pessoas. O mais grave é que hoje
o quadro de degradação social é infinitamente superior ao do passado. A
miséria e os miseravéis aumentam em  um ritmo alucinante. Os favelados
crescem a taxas geométricas e a estes foram adicionados os sem-tetos,com
suas permanentes ocupações.

No campo, a situação é similar. Gerou-se o MST, questionando-se o princípio
básico do direito à propriedade, assim como no caso dos sem-tetos. Os
assaltantes, assassinos e estupradores pipocam, nesta graciosa expressão
de um jornal local. Os meninos de rua multiplicam-se. O país vive um rápido
processo de favelalização ou se me permitem um novo neologismo
(supondo-se que os mesmos não sejam privilégios apenas de sociólogos
treinados em universidades altamente conceituadas no norte da África como
as de Nanterre e Sourbonne) "a paraguaização" do Brasil.

Se não conseguirmos uma mudança de rumo seremos o grande Paraguai do
século XXI. Se Solano Lopez, conseguiu a partir de 1864, destruir seu país,
provavelmente, por dezenas de séculos do porvir, que será de nosso futuro?
Os governantes dizem que o problema é o crescimento urbano. Eles não
leram o último censo do IBGE(1996) ou pensam que todos somos otários? O
que cresce realmente é  o estoque de miséria. As formas de assaltos
tornam-se cada vez mais sofisticadas. E, a maioria do país crê, em sua
santa ingenuidade, que estes são fenômenos mundiais!

   A quebradeira virá inexoravelmente. No rabicho virá a Argentina com seus
40% de exportações para o Brasil.A única dúvida é em que momento preciso
ela se dará : antes ou logo após as próximas eleições. Se a aposta tucana
vingar, apesar da péssima "largada"com a moeda sobrevalorizada, o real
conseguirá seu segundo mandato e logo após virá um violento processo de
realinhamento cambial . O fenótipo tucano é curioso: êle é bom de bico, seu
corpo é alongado e entre estes um cérebro de dimensões modestas.

Se o páreo for adverso, veremos durante um bom tempo a mídia
mostrando-nos os ir e vir dos técnicos do FMI. O governo já dispõe, na
manga do colete, dos argumentos necessários para as razões do fracasso.

Em primeiro lugar, o fracasso de suas mini-reformas. Em segundo lugar, o
desgastado argumento dos ataques "especulativos" por parte de infiéis e
antipatriotas. Curiosamente, estes especuladores só atacam economias
doentias, nunca as saudáveis. Este é o pavoroso e próximo futuro.