| Porque Errei em 2002 (2004) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email: josinomoraes@hotmail.com Em maio de 2002, elaborei profecias sobre o futuro imediato do Brasil, sob a égide de poder do PT. Dava por certa a vitória do PT e seus aliados nas eleições de outubro daquele ano, e nisso não houve erro algum. O erro foi minha previsão do governo petista. Eu o imaginei como uma nova versão do governo de Salvador Allende, no Chile, em 1970. Eu, assim como a imensa maioria das cúpulas petista e tucana, que hoje se revezam no poder, havíamos vivido intensamente aquele processo. Em junho de 2003, escrevi Metamorfose dos Neobolcheviques?, quando já me assaltavam as primeiras dúvidas quanto ao fenômeno da transformação em questão. Desconhecia, até poucos dias atrás, a curiosa expressão Metamorfose Ambulante, cunhada por um dos epígonos latino-americanos do rock, o brasileiro Raul Seixas, que tanto inspira atualmente nosso gárrula anão-de-jardim, encarapitado no poder imperial (1). Hoje, ao ler o artigo de José Genoíno – O PT e a Democracia –, n’O Estado de São Paulo (11/09/04), e embasado em outras e novas percepções recentes, convenci-me do erro. A única vantagem de errar é aprender. Errei, em primeiro lugar, por acreditar na palavra de “comunistas”, num sentido amplo da palavra, no caso, apenas os neobolcheviques. Eles não têm palavra, nem caráter (2) etc. Grosso modo, os comunistas se compõem de neomencheviques (tucanos) e neobolcheviques (petistas, rebelos etc.). Eles, os neobolcheviques, petistas, pregaram durante 20 anos que iriam romper com o FMI, dar o calote na dívida externa, emitir moeda sem lastro para alavancar o crescimento etc., e eu, como a grande maioria do povo brasileiro, acreditei. Como corolário, prometeram, para vencer as eleições, que criariam 10 milhões de empregos, taxas de juros civilizadas, próprias de países onde o capitalismo prosperou e assim se fez. Nessas coisas, obviamente, não acreditei. Durante o processo da Revolução Russa, havia, basicamente, duas facções: os mencheviques e os bolcheviques. Os mencheviques, homens “em cima do muro”, conviviam, conciliatoriamente, com o Czar e com o pobre povo russo de então. Sua idéia central era viver facilmente, mamar nos impostos. Por outro lado, os bolcheviques eram partidários de uma verdadeira revolução, no sentido de remoção do Estado czarista, criação de novas instituições, e, em uma palavra, um novo Estado. Os bolcheviques, sob a liderança de Lenin, foram os grandes vencedores. Eles também viveram de impostos, mas com uma outra roupagem. Quando Genoíno diz, no artigo citado, que “O PT nasceu democrático e com vocação democrática”, o País bem sabe que isso não é verdade. Aqui, há um fenômeno de conversão sem confissão, na ultra feliz expressão de Denis Lerrer Rosenfield, em seu artigo As Agruras da Conversão, n’O Estado de São Paulo de 6/9/04. Para os bolcheviques, a palavra democracia só existia na figura lingüística do oximoro centralismo democrático, ou seja, duas palavras juntas de significados opostos, um paroxismo. O PT surgiu a partir de nossa volta do exílio em 1978/9. Os marxistas, ao sentirem o movimento sindical no ABC, farejaram uma nova saída. A figura do Partidão era um produto, decididamente, impossível de ser vendida; a de Fidel idem. A Igreja Católica, em sua grande maioria, continuava sua fiel aliada, facilitando enormemente a nova estratégia. A figura carismática de Lula caía como uma luva no novo projeto. Ele seria a marionete, o fantoche perfeito para o novo projeto. Recordo-me perfeitamente, em companhia de Flávia Schilling, a jovem brasileira presa com os tupacamarus no Uruguai, e libertada graças à intermediação do General-Presidente João Figueiredo, provavelmente por mera solidariedade gaúcha, de participar, numa tarde ensolarada, de um daqueles comícios dos “companheiros” em São Bernardo do Campo. A simples reivindicação salarial daquela privilegiada parte de nossa mão-de-obra industrial ganhava ali um novo projeto político. A distância do passado facilita-nos a compreensão dos fatos. O projeto foi bem sucedido, levando Lula ao cargo de novo ditador-presidente, ou ditador- constitucional, em 2003, no conceito de Affonso Henriques (3). No entanto, ao longo desse processo, o PT foi ganhando inúmeras prefeituras, governos estaduais e tomando gosto pela vida fácil, vivendo de fartos impostos num País onde eles crescem, aparentemente, como se não houvesse limite. Ademais, através de percentagem sobre os “salários” de seus comissionados – cargos de confiança – algo em torno de 30%, o partido foi se enriquecendo, tornando-se, hoje, um partido riquíssimo para os níveis de renda do País. A nomenklatura política petista, na atualidade, estende-se do Oiapoque ao Xuí. Da velha alma bolchevique, restou uma certa nostalgia pelos amigos feitos no início dessa caminhada; sobretudo Fidel Castro. A essa amizade deve-se creditar o projeto da Tricontinental de Lula a ser realizado no Brasil ainda este ano, segundo algumas informações. No mais, nada muito sério, nada que umas poucas semanas de férias na linda praia de Varadero, junto aos velhos amigos, hoje absolutamente isolados, não sejam capaz de confortar. Quanto a outros aspectos da política externa, como os sonhos demenciais de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU e a eliminação de patentes, dão apenas continuidade à política do Comandante Cardoso. Os discursos na ONU insistem na velha retórica sociológica de seu antecessor: a globalização assimétrica e excludente, uma nova geografia econômica e comercial, "só os valores do humanismo podem abater a barbárie" e outras abobrinhas que devem ser fruto de muita galhofa no mundo civilizado e, a bem da verdade, até na África, pois, como disse recentemente o atual presidente de Uganda, “parecem cantigas de ninar para adormecer crianças”. No fundo, o velho ranço anti- imperialista, de origem leninista. As razões internas para o processo dessa conversão, expostas no parágrafo acima, explicam parte do fenômeno. No entanto, o aspecto mais importante de meu erro foi não ter pensado que o mundo de hoje não é mais o mesmo de 1967. Naquele então, os neobolcheviques, tendo Cuba como linha-de-frente, estavam em plena expansão: “Criar um, dois, três Vietnãs!”. Hoje, felizmente, o comunismo puro se restringe a Cuba e à Coréia do Norte, dois países minúsculos, isolados e sem nenhuma importância para o curso das coisas. Essa razão externa, exógena, pesou bastante na decisão da conversão tomada pelos neobolcheviques brasileiros – petistas, rebelos etc. “As condições objetivas e subjetivas”, como eles gostam de raciocinar, não são nada favoráveis para sua aventura. Esse seria o aspecto forçado da conversão. Heloísa Helena, Babá e Genro, um grupo menor, derrotado na luta interna petista, ainda não entenderam esse aspecto. Sequer me refiro ao obstáculo representado pelas Forças Armadas brasileiras a uma possível aventura neobolchevique no Brasil, pois isso, eles, os petistas e aliados, dão por certo. Allende e a cúpula do Partido Socialista no Chile de então, além do contexto internacional favorável, acreditaram no velho mote comunista da guerra civil espanhola: “El pueblo unido, jamás será vencido”. Sorte para o Chile, cujo glorioso Exército, liderando as demais forças armadas, resolveu facilmente a situação e abriu caminho para o futuro, caso único na América Latina. A metamorfose dos neobolcheviques é saudada por muitos no país, mas Pedro Malan, baluarte dos neomencheviques, no seu artigo recente, Aprendizado Coletivo, n’O Estado de São Paulo de 12/9/04, além de saudá-la, demonstra-a com bastante lucidez. Inicia seu artigo com uma inteligente e sugestiva frase de Keynes: “Quando alguém me convence de que eu estava errado, eu mudo de opinião. O que você faz?”. Logo mais, ele cita Jair Meneguelli: “Nós fomos irresponsáveis quando oposição”, e o senador Aloísio Mercadante: “Nosso processo de amadurecimento no governo foi conseguido às custas de muitas dificuldades, sofrimentos e decepções. Vimos que temos que ser mais cuidadosos nas nossas ações e procedimentos. Sucessivos episódios nos ensinaram a ser mais atentos e, principalmente, mais humildes. Espero que tenhamos aprendido a lição...” Em Nova Iguaçu, região metropolitana do Rio, tucanos, petistas e o PFL estão unidos para a eleição de prefeito. A nomemklatura política é una. Notas: (1) O agudo artigo, de Janer Cristaldo, Fala, ó Metamorfose Ambulante!, demonstrando o estado mental de nosso futuro tripulante do Air Force Fifty One, nos traz à memória nosso último avanço no estudo da idiotia nacional: O Surto de Idiotia. Uma das facetas do fenômeno é a dupla-mensagem, contraditória e mutuamente excludente. O artigo se encontra disponível no site http://www.midiasemmascara.org/, seção arquivo. (2) Dia desses, amigos liberais enviaram, em tom de brincadeira, uma mensagem a propósito das promessas de Fidel Castro, pouco antes de sua “revolução”, em 1959. Era um primado de princípios liberais. Creio que nem os Founding Fathers seriam tão hábeis em expô-los. (3) Affonso Henriques, em sua obra A Era Vargas, em três volumes, chama a atenção para este aspecto importantíssimo das constituições na América Latina: os presidentes têm o poder de fato de ditadores. Por quê? Creio ser a influência do positivismo de Comte no continente, mas isso demanda maiores estudos. Isso conduziria a muitos conflitos no continente, devido à intolerância gerada pelo excesso de poder na presidência. No caso brasileiro, obviamente, Getúlio Vargas, em 1930, agravou esse problema. |