Marcola: o Fato Novo na Guerra Brasileira (2006)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

Marcola é o notável primeiro líder criminal nacional (sic) que surge na historia
brasileira. De fato, desde 2001, o Brasil tem um líder criminal com um partido
político real que dispõe, inclusive, de um braço armado, um novo e efetivo
exercito: O Primeiro Comando da Capital ( PCC). O PCC foi fundado em 1993,
mas, seu documento oficial data de 1996. Nos dias atuais, eles publicam
panfletos para dirigir-se à população de baixa renda explicando seus objetivos
políticos.

Num primeiro momento, pode parecer estranho falar em uma guerra brasileira,
porém, a cada dia que passa, a população percebe a existência desse novo
fenômeno e realiza passeatas pedindo paz. Até o PCC pede por “Paz, Justiça e
Liberdade”. De fato, enquanto no Iraque houve 46.240 assassinatos desde o
começo da guerra em março de 2003, houve aqui 51.043 assassinatos em
apenas um ano, 2003 (O Estado de S, Paulo, 17/9/2006, A13).

A bem da verdade, a guerra é uma cruel realidade para a maioria dos paises da
América Latina, mas, sem dúvida, a intensidade do fenômeno é maior no caso
brasileiro. Não se trata de uma mera coincidência o fato do Brasil ter o dobro de
carga tributaria, principal causa da tragédia, do que a média dos demais paises
latino-americanos (40% contra 20% do PIB). Um estudo recente (Folha de S.
Paulo, 17/9/2006) mostra que se não houvesse sonegação fiscal a carga
tributária iria a aproximadamente 60%.

Os primeiros sinais de algo estranho no ar pode-se notar a partir dos anos 60/70
no Rio de Janeiro e São Paulo, as maiores cidades brasileiras.  Ao mesmo tempo
em que se observa uma degradação social com um aumento considerável no
numero de favelas, ocupações, etc., os indicadores de violência começam a
explodir. Nas ultimas décadas, como um sinal da decomposição do Estado, o
agrupamento de criminosos nas prisões tornou-se o lugar ideal para sua
organização em diferentes facções. As prisões tornaram-se universidades do
crime – Marcola as chama de faculdades. No caso de São Paulo, temos a FEBEM,
um colégio preparatório para o crime.

Desde fevereiro de 2001, quando da primeira grande rebelião concomitante em
29 presídios em São Paulo , Marcola e seu PCC se consolidaram como a única
liderança no mundo do crime. Eles mataram nas prisões vários líderes de
facções rivais na disputa pela liderança. Eles criaram o primeiro e único
verdadeiro partido político desde 1930. Diferentemente de outros partidos
políticos criados pela nomenklatura política a partir de Vargas, eles dispõe de
rígidos princípios e sua própria Lei do Cão: disciplina, ética e punições - estas são
rigidamente obedecidas.

No dia das mães de maio de 2006, Marcola e seu Estado Maior promoveram a
maior rebelião criminal jamais vista: eles pararam – lojas, fábricas, bancos,
escolas, academias de ginástica, etc. – no Estado de São Paulo, principal unidade
da Federação, 1/3 do PIB. O começo da grande rebelião deveu-se a
transferência dos principais lideres do PCC para diferentes prisões dentro do
Estado, a possibilidade dos lideres não verem os jogos da seleção na Copa do
Mundo – afinal, a Copa do Mundo é nossa! – e a expectativa do dia das mães.

Em dois ou três dias, eles mataram aproximadamente 40 policiais, muito mais
do que a guerrilha cubana no período 1968-1973. Eles levantaram cerca de 80
presídios ao mesmo tempo no Estado e ainda alguns fora do Estado, atacaram
postos policiais, fóruns e outros símbolos físicos da existência do Estado.
Ademais, eles queimaram uma porção de ônibus com coquetéis Molotov, e a
razão é que nos últimos anos eles criaram um sistema alternativo de transporte
publico – as vans – nas grandes cidades, concorrente do sistema tradicional.    

No dia 23 de maio de 2006, Marcola concedeu uma entrevista ao jornal O Globo
na qual o que mais impressiona é sua lucidez. Quando perguntado sobre se ele
era membro do PCC ele respondeu:” Muito mais que isso, eu sou um sinal dos
novos tempos”. Quando perguntado sobre a solução ele respondeu: “ Não há
solução, cara....A própria idéia de solução já é um erro. Já olhou o tamanho das
580 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo?
Solução como?