A Mecanica do Crime (1997)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email:josinomoraes@hotmail.com

      Se o "estalo" do Padre Vieira sobreveio durante suas orações  a Virgem
Maria, o nosso despertar aconteceu, de fato,  após a mudança da nossa  
marcenaria para um bairro próximo às favelas. Começamos a compreender a
dimensão e profundidade do crime na atualidade. E o que é pior, sua trágica
tendência ao crescimento.

      A pobreza, no Brasil atual, quase sempre gera miséria que catalisada
pelas drogas (basicamente o crack),  gera assassinos de primeira grandeza.

      A lógica do crime é fundamentalmente, no caso brasileiro, a lógica da
dupla. O gráfico abaixo facilitará a compreensão da exposição.











      


      Os bandidos, em sua enorme maioria, atuam em dois elementos. Os do
tipo I atacam quando o imóvel  esta  abandonado (nenhuma presença humana
ou canina). Na maioria dos casos  desarmados. O tráfico de drogas se  tornou o
grande gerador de "empregos". Não sei se o IBGE  os computam no setor
informal da economia, hoje, em fabuloso crescimento. No caso dos elementos
do tipo II a dupla compôe-se de um pedestre e outro de bicicleta, este armado.
A nível nacional, esta dupla é rara. Ela se dá quando as ruas são largas e
planas. O bandido armado aponta a arma para a cabeça de suas vítimas e as
conduz para banheiros com o intuito de isolár-las. Provavelmente, e é bastante
difícil admitir, a técnica provem da guerrilha castrista no Brasil. Os do tipo III,
constituem a forma principal. Utilizam uma motocicleta e ambos usam armas.
São  perigosíssimos. A motocicleta, veloz, pequena e versátil, tornou-se seu
instrumento fundamental de "trabalho". Ela se tornou célebre durante a
segunda guerra. Eles assaltam pessoas, postos de gasolina, padarias, lojas,
armazéns, pedágios, bancos, enfim, locais onde existe a possibilidade de
encontrar algum dinheiro. Em algumas oportunidades, ambos podem se tornar
estupradores. Desenvolvimento recente.

      Atualmente, o grande trunfo são os seqüestros-relâmpagos. Pena que a
imprensa tão ciosa com os níveis de popularidade de nossos governantes não
nos brinde com dados sobre esta tão interessante questão. O objetivo são os
cartões magnéticos e caixas eletrônicos. É a inovação brasileira para o século
XXI. Os bandidos do tipo IV, são o topo da pirâmide. São conjuntos dos tipos
II e III. Na maioria dos casos atuam em duas duplas, ou então, no caso de
ações de maior envergadura, formam quadrilhas excepcionalmente atingindo
números ímpares. Assaltam supermercados e grandes empresas. Utilizam
carros velozes, muitas vezes importados, celulares, rádios. Há evidências, que
no Rio de Janeiro chegam a fazer treinamento com vídeos. Uma de suas
especialidades são os seqüestros. Um taxista me relatou que,  quase sempre,
os do tipo I e II são mais perigosos devido a sua inexperiência. Estes são
denominados de "pivetes" ou "pivetões".

      No gráfico podemos visualizar a mecânica do processo. A tendência é
sempre no sentido vertical ascendente: os do tipo I rapidamente sofrem uma
metamorfose para os do tipo II, estes para os do tipo III  e finalmente para os
do tipo IV. Qualquer um dos três primeiros tipos aqui classificados, ao passar
pelos presídios , torna-se um elemento do tipo IV!  Os presídios , hiperlotados,
com seis a sete vezes suas capacidades projetadas,tornaram-se centros de
treinamento de altíssima eficiência. Provavelmente, estamos gerando os
primeiros animais bípedes da história humana contemporànea.O  processo é
alimentado de baixo para cima. Poderia pensar-se que o estoque de bandidos e
assassinos tenderia a diminuir devido as baixas sofridas seja pela ação da
polícia ou pelas disputas internas (estas muito mais significativas), no entanto,
os fatos apontam no sentido inverso. A medida em que a miséria aumenta ela  
alimenta a geração de bandidos do tipo I e assim por diante. A tendência é no
sentido de aumento significativo do estoque. Esta a terrível realidade do Brasil
atual.