Notas de uma Viagem aos Estados Unidos (2006)[1]

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

No aeroporto de saída, São Paulo, superlotado, o encontro do obvio: emigrantes voando
para New York, Madrid, Los Angeles e Japão. Alguns pouco escolarizados e outros o
bastante - percebia-se nestes que haviam freqüentado universidades brasileiras. Para os
mais escolarizados, o destino era Nova York, centro de uma grande colônia brasileira.
Absolutamente todos em procura de um futuro melhor, de trabalho, de oportunidades.

O aeroporto de entrada nos Estados unidos era o de Dallas, Texas. Na aproximação ao
aeroporto, podia-se vislumbrar uma vasta área plana com pastagens e agricultura,
aparentemente. O aeroporto é enorme, de forma oval. Eu havia estado ali em 1992,
visitando dois de meus filhos que então faziam intercâmbio cultural. Mas algo havia de
diferente no ar: o aeroporto estava mais bonito, havia mais restaurantes, havia um
segundo trem fazendo a circunvalação entre os terminais etc. Respirava-se um ar de
progresso. A única coisa ruim era o fruto do terrorismo radical islâmico e, talvez, da aftosa
brasileira: havia que submeter-se a uma nova maquina de segurança – algo como uma
descarga de ar comprimido. Na saída do aeroporto para Washington, os aviões eram tantos
que tivemos que esperar, na fila, uns 15 minutos para decolar.

Na chegada ao Dulles Airport, em Washington, DC, guindastes e homens trabalhando na
ampliação do aeroporto[2]. No Arizona, soube que para reformas individuais, havia uma
restrição de dois sacos de cimento por pessoa/dia. Posteriormente, numa rápida viagem a
Nova York, encontrei dificuldades para caminhar pelas ruas devido ao numero de reformas
em andamento. Você observa um novo conjunto de apartamentos sendo construído e de um
dia para o outro ele está pronto. Que diferença em relação ao Brasil, onde você observa
esses esqueletos de prédios de apartamentos abandonados por anos a fio. Na periferia de
Washington a linguagem arquitetônica é uma só: eles constroem pequenos edifícios de
quatro andares, sem elevadores, eliminando assim uma parte importante do custo
construtivo e o de manutenção.

E os idiomarxistas – híbridos de idiotas + marxistas – da mídia latino-americana
argumentam que o progresso americano é fruto da exploração da América Latina! Explorar
quem? Os que passam uma semana inteira na folia do carnaval? Quem vive nas favelas e
caserios? Quem não trabalha? Não porque não queiram trabalhar, mas simplesmente
porque não há trabalho. No fundo dos fundos, o maior problema da América Latina é a
escassez ou a absoluta ausência de inteligência.

Na minha viagem anterior, em 2003, ao ver arquivadas, na Biblioteca do Congresso,
programas de TV com Groucho Marx, percebi a importância que os americanos dão ao humor
como manifestação de inteligência. Aos domingos, o The Washington Post publica, sob o
titulo Comics, nada menos que 6 páginas de charges (cartoons)! Achei que isso não existia
no Brasil, exceto por uma única charge publicada diariamente pela Folha de S. Paulo. Agora,
mais atento, descobri que O Estado de S. Paulo publica, às vezes, sob o titulo Humor, um
quarto de página. Ao olhar mais atentamente, percebi que se trata de uma tradução! Em
compensação, as colunas sociais, para ricos e famosos, são diárias e enormes. Lá não
existe isso nos grandes jornais diários.

Há mais três outras formas de constatação da absoluta ausência de inteligência na América
Latina. Primeira, a inexistência de prêmios Nobel de ciência, exceto no caso da Argentina
anterior aos estragos do peronismo. Segunda, a inexistência de artistas. De fato, o único
registro de um artista na América Latina, reconhecido internacionalmente, que eu saiba, foi
o caso de Aleijadinho, quando ainda não existia o Brasil como Estado soberano. Terceira,
os programas de TV, elaborados para a maioria da população, por exemplo, Who Wants to
Be a Millionaire, são pirateados dos paises desenvolvidos.

Quanto à arte, cabe uma observação adicional. Ao entrar na Divisão Hispânica da Biblioteca
do Congresso, me deparei com quatro murais horrorosos de Candido Portinari executados
em 1941. Aqui, cabem duas hipóteses. Ou bem ele era o “melhor” – que difícil escolha! –
muralista latino-americano à época, ou razoes de Estado, que detalharei mais abaixo,
determinaram sua escolha. Afinal, Getulio  Vargas era uma peça fundamental no tabuleiro
da 2ª Guerra Mundial e, à época, seu coração batia nitidamente no compasso dos nazi-
fascistas. Agradar o Brasil era uma questão vital.           

No decorrer do mês de janeiro, a mídia americana preocupava-se com a morte de 12
mineiros numa mina de carvão em Virginia, questionava-se as multas sobre as empresas de
mineração no tocante às questões de segurança de trabalho, a nomeação do Sr. Alito para
a Suprema Corte, discussões sobre a legalidade do aborto, julgamentos de criminosos,
debates sobre punições, abusos contra crianças, etc. Encontravam-se, no interior dos
jornais escritos, algumas notas menores sobre baixas no Iraque e outros problemas
referente ao curso natural da guerra.

No decorrer de fevereiro, os principais temas foram a extensão do Patriot Act – medidas de
exceções em prol do combate ao terrorismo ; a questão de sete terminais de portos a cargo
de empresas estatais árabes, devido ao quesito segurança; protestos em funerais contra o
casamento gay; a mutilação islâmica e a possibilidade de uma “guerra civil” entre xiitas e
sunitas. Não creio que a melhor expressão para descrever a situação seja “guerra civil”,
pois não há a possibilidade de dois comandos definidos etc.

O perigo seria, sim, de uma matança generalizada e desordenada entre as partes, como a
que esta havendo nos dias atuais. Há também, nas primeiras paginas, noticias curiosas e
gostosas, tais como: o desaparecimento da classe media negra em New Orleans após o
katrina, o primeiro negro a ganhar uma medalha de ouro nos jogos
olimpicos de inverno de
Turim, a vitória da jovem americana de nome Mancuso no giant slalom ski, o problema de
adaptação de outras culturas à americana, matéria com o titulo Love is a Long-Haul
Addiction, ilustrado com as flechas de Cupido, no dia de San-Valentim etc.

Porém, a grande noticia de fevereiro foram as conseqüências das charges – cartoons –
publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten sobre o profeta Maomé. Aqui, cabem
varias considerações, as quais enumerarei por questão de método:

a) a coragem do editor Flemming Rose. Seu artigo, Why i Still Believe My Decision Was
Right, que li no The Washingron Post de 19 de  fevereiro de 2006, aqui traduzido para o
português pel’ O Estado de S. Paulo e publicado no dia 21 de fevereiro, sob o titulo Por que
Publiquei as Charges, é um exemplo de lucidez e fonte de reflexões. Entre outras coisas,
ele diz: “Na Arábia Saudita, você pode ser preso por usar uma cruz ou levar uma Bíblia na
mala, enquanto os muçulmanos na Dinamarca ‘secular’ [laica] podem ter suas próprias
mesquitas, cemitérios, escolas e estações de TV e radio.”.  Harold Bloom, numa entrevista
concedida a’ O Estado, 11 de fevereiro de 2006, pág. D3, também disse algo inteligente:
“Reclamam de charge, mas fazem silèncio diante de atos terroristas”.       

b) A tradução do artigo, bem como outras noticias divulgadas no Brasil são um horror, pois
aqui, não está claro o conceito de cartoon e a existência de falsos cognatos, ou amigos
falsos, como dizem hoje alguns americanos. Em primeiro lugar, se confunde a idéia de
charge com caricatura. A palavra charge, de origem francesa, é a correta. Se há duvidas, se
a palavra é démodé, por que não adotamos cartoon, hoje, a palavra internacional para o
caso, e não cartun? Façamos como a língua inglesa faz: obedeçamos a grafia original –
senão, aparecerão, no futuro, devido à profundidade de suas ignorâncias, muitos Aldos
Rebelos com suas propostas de multas sobre estrangeirismos etc. Ademais, a palavra
cartoon aparece traduzida como quadrinho, desenho, ilustração, cartun etc. O conceito,
obviamente, não está claro. A palavra inglesa imam aparece traduzida por imã, o que não
significa absolutamente nada no contexto. Imam é um sacerdote muçulmano. A palavra
secular – não religiosa, laica - tampouco está clara no português brasileiro.

c) a entrevista concedida por Ayann Hirsi Ali, politica holandesa de origem somali, à revista
alemã Der Spiegel, aqui reproduzida pel’ O Estado, no dia 19 de fevereiro de 2006, bem
como seu recente discurso em Berlim, traduzido pór Janer Cristaldo, foram noticias
alvissareiras. Ela vive sob proteção policial após o assassinato do cineasta holandês Theo
van Gogh por um fundamentalista muçulmano. Trata-se de uma jovem extremamente lúcida
que luta pelos ideais de liberdade, no sentido universal da palavra liberdade. No caso
especifico do Brasil, bem como o de outros paises latinos, a liberdade seria não ter que
comprar gasolina, óleo diesel, gás de cozinha etc que não fossem produzidos pela
Petrobras! Essa liberdade não viverei, e é por isso, entre outros fatores, que o Brasil não
tem futuro.

d) o comportamento da mídia americana foi, obviamente, resultado de temor de
represálias. Pela segunda vez em minha vida, atinei com o que alguns sábios do passado
chamam de razões de Estado. A primeira vez foi com o caso de O. J. Simpson. O mundo
inteiro percebeu, pela enormidade de evidências, que ele tinha assassinado sua ex-mulher,
linda loira, e seu namorado. No entanto, a comunidade negra americana mandou um claro
recado: sua condenação significará um risco à paz e à estabilidade do Estado americano.
Ele foi absolvido. Agora, as charges não foram publicadas. É muito difícil para mim criticar a
sociedade americana, pois, afinal, estou convencido de que é ela quem paga o mais alto
preço, com muitos corpos de vantagem, além dos corpos de inúmeros jovens nos campos
de batalha, pela atual luta pelos ideais de liberdade. O mundo terá que reconhecer isso
num futuro bastante próximo. De qualquer forma, fica aqui registrado o raciocínio em prol
da manifestação da inteligência.

Ademais, uma das noticias de primeira pagina que me chamou a atenção foi publicada pelo
The Washington
Post no dia 8 de fevereiro de 2006. Ela dizia: “Returning troops suffer
fatalities on motorcycles” Ou seja, havia uma preocupação com o numero de mortes de
soldados, que retornavam da guerra, em acidentes de motocicleta! Esta noticia jamais seria
reproduzida pela mídia brasileira.

Enquanto isso, a mídia brasileira dava um enorme destaque às questões internacionais,
sobretudo àquelas ligadas à Guerra do Iraque. Qual a importância da atual guerra para os
interesses do país? Praticamente nenhuma. O país é insignificante demais[3]. Questões
internacionais, diretamente ligadas ao país, como a atual função benemerente no Haiti,
força de paz a mando da ONU, é o máximo que enxergo. E, ainda assim, tendo que arcar
com o desprestigio internacional – a bem da verdade, apenas na América Latina, pois o
resto do mundo sequer tomou conhecimento do fato – do suicídio, por mero tédio, do
general brasileiro comandante das tropas. Em março, tivemos a noticia do suicídio de outro
general, comandante da 4ª Divisão de Exército – Minas Gerais.

Ademais, cabe aqui mais uma nota quanto a idiotização da mídia brasileira em relação à
Guerra do Iraque. No dia 30 de janeiro de 2006, a Folha de S. Paulo deu como manchete
principal: Soldado Brasileiro a Serviço dos EUA Morre no Iraque. Tratava-se de um jovem
nascido no Brasil e criado desde os 9 anos nos EUA. O jornal não explica que hoje, após a
Guerra do Vietnã, nos EUA o serviço militar não é mais obrigatório, como no caso brasileiro
[4]. Trabalha-se para as forças armadas sob os ditames de um livre contrato.  Mas o mais
curioso vinha no corpo da noticia: “É a primeira baixa confirmada do Brasil no Iraque.” Ou
seja, o Brasil participava da guerra. No fundo da noticia estava a exploração da
megalomania demencial brasileira: não há nada importante no mundo onde não esteja
envolvido o “grande” Brasil. Ao topar-me com um uruguaio num hotel, ele, me gozando,
exclamou: “Brasileiro, o maior do mundo!”

Quais as razões para tal comportamento da mídia brasileira? Hoje, enxergo apenas duas.
Primeiro, enfatizar a “derrota” dos americanos em seu atual projeto político de levar os
ideais de democracia, liberdade e tolerância para o Oriente Médio e em sua campanha
militar. Ademais, potencializa, em seus jornais televisivos e escritos, os sentimentos anti-
americanos, entre eles, os obviamente naturais, os dos muçulmanos ao redor do mundo.
Com tal política, injeta-se mais anti-americanismo na população. Outra forma é enfatizar a
“ruindade”, “maldade” americana, como fez a Folha de S. Paulo de 18 de janeiro de 2006
com a manchete Califórnia Executa Cego Diabético de 76anos. Eu, estando lá, não soube da
noticia, Segundo, ela coopera com a Nomenklatura quanto ao papel de diversão,
despistamento, dos graves problemas nacionais, i.e., guerra local, desemprego, emigração
etc.

No final do dia 16 de janeiro, ao tomar o último – ou primeiro –  ônibus na volta, que me
ligava diretamente ao metrô, vivi uma situação inusitada. Uma African American, como se
diz atualmente por lá, uma negra, entrou esbravejando no ônibus procurando por três
latinos[5] que estavam sentados no fundo do ônibus, dois homens e uma mulher. Ela
afirmava, em altos brados e dedo em riste, que a mulher a havia chamado de fea, monkey.
Os latinos a ameaçaram de ir ao distrito policial, ao que ela retrucou: tudo bem.
Retornando ao seu assento, ela exclamava: This is my country! Outro negro, sentado a sua
frente, assentia com a cabeça. Ela bradava: illegals, enquanto os latinos se retiravam do
ônibus.

Aqui cabem algumas considerações sobre a atual sociedade americana de baixa renda, com
a qual convivi e pude observar, salvo uma única exceção. A mídia brasileira os chama de
“pobres”. Pois bem, na periferia de Washington o mais baixo aluguel é da ordem de US$
1.000. Todas as moradias são aquecidas e com duchas maravilhosas – nem pensar nesse
chuveirinho elétrico maroto que aqui usamos e que, alem de tudo, é extremamente
perigoso. A mídia americana também os chama de pobres – poor -, mas é preciso ter em
mente o que afirmei acima.  

O primeiro aspecto marcante é o aumento da língua espanhola falada no País,
conseqüência da tragédia da América Latina espanhola. Ademais, é impressionante o peso
da mão-de-obra latina ilegal na economia americana. Não há como eliminá-la sem um
verdadeiro trauma na economia americana.  Mesmo sendo conhecedor da existência de um
dicionário atual de spanglish, o ritmo do avanço do espanhol é assustador –  número de
canais de televisão e, inclusive, enormes jornais impressos[6]. Não é por acaso que alguns
analistas americanos, com pouca percepção, a meu ver, temem pela perda de sua cultura.
Discordo. Os latinos enriquecem a cultura americana em detalhes como comida, drinks,
palavras etc, mas, no fundamental, eles incorporam a cultura americana: dedicação ao
trabalho, seriedade, respeito às leis etc. Às vezes, em pequena proporção, nota-se alguns
com o ranço da infecção marxista adquirida na América Latina, a saber, o  sentimento de
sentir-se explorado etc[7].

Os latinos vêm de todas as partes. Na região de Washington prevalecem os salvadorenhos,
hondurenhos e guatemaltecos. Os brasileiros encontram-se um pouco mais ao norte, na
região de Baltimore. Não há chilenos! Está claro? A única exceção são os chilenos. Ave
General Pinochet e seu Exercito! Uma grande pergunta atual é qual a diferença entre as
forças armadas chilenas e as demais da América Latina? Por exemplo, enquanto as forças
armadas brasileiras em 1964 tinham por lema: “Encampar para melhorar”, em 1973, as
chilenas optaram pelas idéias de livre-mercado.     

Os latinos estão por todas as partes. Trocam olhares de cumplicidade e afeto por você.
Num restaurante de pratos feitos, ao perceber que las muchachas eram latinas, tarefa
pouco complicada, me dirigi a elas em espanhol e elas abriram largos sorrisos e já
procuraram me proteger com os pedaços de peixe. Isso se dá em todas as situações. Eles
procuram se proteger entre si. Eles te ensinam as melhores opções de transporte etc. Ao
estar aguardando um ônibus, uma senhora latina se aproxima e pergunta si hablo e logo
me dá um passe de 24 horas para os ônibus que ela havia comprado equivocadamente.
Trata-se de um fenômeno natural de identificação, de empatia, entre os mais fracos, os
perseguidos. Me deu pena ver uma latina com duas crianças pequenas no meio daquele
clima inóspito, pisando na neve e tentando se defender, com suas pequenas crias.

Além das autoridades da imigração, agora, surgiram os minutemen, voluntários que
guardam a fronteira do México, os fotografam, fazem campanha publica contra a imigração
ilegal etc. A última novidade nessa luta política é a resposta latina de manifestar-se em
frente à casa desses minutemen, para intimidá-los e denunciá-los à comunidade. Para o
próximo abril, os minutemen já anunciaram a April Border Campaign. Os jornais dão
bastante cobertura a isso, obviamente. As igrejas, que, para a sorte deles, não têm pátria,
os protegem.

Outro aspecto marcante da atual sociedade americana é o excessivo apego às regras, pelo
menos para nós latinos,. Creio que isso pode ter se agravado após o 11 de setembro. Dou
apenas dois exemplos. Primeiro, depois de dias pesquisando na Biblioteca, os latinos, na
recepção de nossa sala de leitura, não me pediam mais minha carterinha de leitor. Já os
americanos, sempre. Ora, a maior probabilidade de falha seria um provável esquecimento
meu, que, no caso, me impediria. por mera formalidade, de ter acesso à sala. A outra
possibilidade seria que eu tivesse cometido alguma falta grave e tivesse perdido a condição
de leitor.  Acho que eles pensam mais nesta ultima possibilidade, devido a seu rigor. Mas,
neste ultimo caso, eu não me atreveria. Segundo, um amigo latino me havia orientado no
sentido de deixar uma papeleta preenchida dentro do livro, sobre a mesa de leitura, para
evitar que ele não fosse eventualmente recolhido. Como eu trabalhava com muitos livros ao
mesmo tempo, coisa de 20 a 30 volumes, eu lhe consultei se haveria necessidade de fazer
isso com cada livro, ao que ele me retrucou: ponha apenas uma no livro de cima da pilha.
Ao final, sequer isso eu fazia, me esquecia, uma vez que as coisas corriam tão bem –
ninguém mexia nos meus livros. No meu ultimo dia de trabalho, estava lá na recepção o
chefe da sala, de cara mal-humorada, que me repreendeu, dando-me um pacote de
papeletas e dizendo que a regra era uma para cada livro. Para seu desprazer, disse-lhe que
no final do dia devolveria todos os livros.

A Biblioteca do Congresso é algo fenomenal. Certa feita, encontrei durante o almoço uma
professora francesa de arquitetura, que ali pesquisava arquitetura do final do século XIX.
Reclamávamos um pouco da comida, quando ela subitamente interrompeu o diálogo e
disse: “de qualquer forma a biblioteca e fantástica. Temos uma em Paris, mas nada que se
compare a isso.” De fato, fiquei pasmo e feliz ao saber que minha tese de formatura em
economia,
The Pattern of Industrial Growth in Chile, de 1977, lá se encontrava.

No dia 12 de fevereiro houve uma forte nevasca, coisa de uns 30 cm de neve, e eu vivi duas
situações curiosas.

Primeira, como tenho o hábito de acordar muito cedo vi um homem tentando remover a
neve com uma pá. Um latino, pensei. Sai, naquele frio intenso – tenho alguma experiência
após meus cinco anos de Suécia – e conversamos um pouco. Ele me explicou que tinha uma
máquina para executar aquela tarefa – limpeza das calçadas do condomínio – mas que ele
não conseguia fazê-la funcionar.  Então, propus: vamos tentar os dois juntos. De fato,
depois que consegui descobrir o botão do afogador, enquanto ele apertava o botão,
injetando mais gasolina, eu puxava a corda para o giro inicial. Vitória! Que sabor agradável
tem a vitória! Estivéssemos na América Latina e aquela maquina seria amaldiçoada pelo
populismo local. Afinal, ela rouba postos de trabalho.

Segunda, quando estou removendo com uma pá a neve do carro de meu filho, antes que ela
se tornasse gelo, uma senhora de cor surge e propõe pagar-me cinco dólares para eu
remover a neve da frente do carro de sua amiga. Eu, brincando, aceitei no ato, embora me
parecesse muito alta sua proposta. Ao terminar a tarefa, limpando inclusive a lateral do
carro, ela me deu duas cédulas de cinco. Por mais que eu implorasse foi impossível
devolver o dinheiro. Era o Pais das oportunidades!  

Num final de tarde, num supermercado, fazendo hora, brincava com alguns caixas latinos
sobre a importância relativa das línguas. Logo mais, o manager nos veio a repreender. Eu
dizia: o português não serve para nada, o francês ideim, o italiano, idem etc. Um italiano
que passava pelo caixa me olhova indignado. Eu disse: depois do inglês só restará o
espanhol. Ele encheu o peito de auto-estima e exclamou: “Yo me siento orgulloso de hablar
el  español!”  

Meu filho acha os negros racistas. Tenho outra visão. Eles guardam um profundo
ressentimento contra os brancos. Afinal, deixaram de ser escravos há míseros 150 anos.
Tampouco parecem se importar com o imenso contingente de brancos que morreu em
função de sua nobre causa. Na cafeteria – sala com mesas para café e comida por quilo -
da biblioteca eles não se misturam com os brancos, salvo raríssimas exceções. Com relação
aos “brancos” latinos – em sua maioria, cruzamento de brancos com índios ou negros, ou
cruzamento de índios com negros - há outros agravantes. Primeiro, eles, com sua
inesgotável oferta de mão-de-obra, dão a impressão de contribuir para o achatamento de
seus salários. Segundo, os latinos, quase sempre a maioria nos ônibus que circulam apenas
na periferia[8] – área dos commuters –, com sua língua incompreensível para eles, lhes dão
a sensação de invasão de seu território. Isso não se dá entre os americanos cultos que,
hoje, procuram aprender o espanhol, assim como o fizeram com o francês no passado.
Terceiro, os latinos chegam com “fome de bola”, querem trabalhar 24 horas por dia. Em
conseqüência, alguns enriquecem mesmo lavando pratos![9] Ou, então, como alguns
brasileiros, na região da grande Boston, montando empresas de faxina. Os negros, sendo
americanos e com pleno domínio do inglês, procuram o emprego público, a segurança, mas,
onde jamais haverá a possibilidade de enriquecimento.

Ademais, a obesidade mórbida é muito mais comum entre os negros. Realmente dá pena
ver aquelas pessoas doentes, locomovendo-se com dificuldade. Os latinos, criados
basicamente na dieta mediterrânea, além do trabalho manual que lá executam, são
normais. Para piorar, o restaurante na cafeteria da biblioteca serve pedaços enormes de
alimentos. Por exemplo, o frango frito vem em peças de no mínimo um quarto de frango!
Tentei retirar apenas uma parte e fui repreendido.

A economia americana vive a luta permanente pela procura da eficiência, obviamente. No
dia-a- dia, pratos e talheres são de plásticos. Pensei: quanto trabalho na América Latina
não é desperdiçado lavando pratos e talheres! Ademais, o prato feito desempenha lá um
grande papel. Nos ônibus, além de não ter essa figura grotesca do cobrador você tem que
ter o trocado. O problema é seu. Claro, o motorista não deve perder tempo dando-lhe o
troco.

No Brasil atual, a coisa veio a se complicar ainda mais nos últimos anos, com o
aparecimento dos perueiros. Para a cidade de Campinas, eu calculo que, em média, são
dois homens para o transporte de seis passageiros! Para inscrever-se como leitor da
Biblioteca do Congresso você deve fazê-lo sozinho. Apenas a foto fica por conta de um
funcionário. Para a xérox, você compra, numa maquina, um cartão de crédito e logo passa
a  operar sozinho. No inverno, nas partes frias, você pode ver, eventualmente, o carro
funcionando sem motorista, apenas para o prévio aquecimento. No extremo sul a situação
se inverte. A idéia sempre é melhorar o conforto e ganhar tempo.

O espírito de competição é fantástico. Lá não existe a Petrobras etc. Vi na TV uma disputa,
no Arizona, de nenês engatinhando! Outro aspecto é a confiança. As salas de ginástica do
condomínio ou conjunto de apartamentos ficam 24 horas a sua disposição.

Há aspectos negativos, porém. A burocracia leva incubada em si o vírus da Nomenklatura,
mesmo nos paises onde prevalece o livre mercado. Salvo engano, creio que foi Bastiat que
disse que o Estado é aquela coisa onde todos procuram viver à custa dos outros. Ao pagar
meu almoço na cafeteria, fui consultado se era empregado da biblioteca ou não. Eles, os
funcionários, tinham “conseguido” um desconto de 25%, me informou o caixa. A empresa
que administrava a cafeteria  era privada. Cabe a pergunta: a empresa teria reduzido
magnanimamente sua margem de lucro ou teria eu que pagar um adicional para cobrir os
custos da redução de preços para os funcionários? Ademais, às sextas-feiras o movimento
caia bastante nos corredores da biblioteca e cafeteria, Me explicaram que era coisa de
compensação de horas e outros artifícios da Nomenklatura que tão bem conhecemos por
aqui. Afinal, era o inicio do final de semana. Um estudioso da América Latina me contou
que isso tem diminuído bastante nos últimos governos liberais - conservatives.

Outro aspecto negativo que observei é a quase completa ausência de banheiros públicos no
sistema de transporte coletivo. Refiro-me, sobretudo, nos pontos de conexão. Se você
consulta um latino ele o aconselha: vá lá fora, mas cuidado com a policia. Outros sequer
mencionam a policia. Refiro-me aqui a pessoas normais. Entretanto, há o American
Disabilities Act of 1990 que creio voltar-se para as pessoas com defeitos físicos. De fato,
lá, os aleijados se locomovem em cadeiras de roda, tomam metrô, vão a biblioteca etc.
Muitos ônibus são providos de sistemas hidráulicos para esse fim. Claro que isso só é
possível em um Pais rico. O problema é que uma falha na próstata, tão comum entre os
homens após uma certa idade, não é visível. Certa feita, procurei ajudar, dentro do
possível, um senhor mexicano que se encontrava nessa difícil situação.

A cada 31 de janeiro, o presidente americano dirige-se ao Pais através de seu The State of
the Union. É uma data muito importante para a Nação e grande parte da população
acompanha o evento pela televisão. Este ano, os principais pontos foram: a guerra ao
terrorismo, o problema do Irã com seu projeto nuclear, o novo desafio da competição
econômica com a China e a Índia, o petróleo, o problema da previdência e os ilegais –
latinos, of course. É uma grande festa em Washington. Na platéia ,estava presente a
tenente da Força Aérea que ficou famosa quando foi ferida, com seu cão, caçando minas. O
lindo pastor alemão também participou da festa. O presidente George W. Bush fez um
solene agradecimento às famílias dos militares americanos.

Para se entender o que é uma Nação relato uma notícia, de primeira página, de uma piloto
de helicóptero, mulher, 37, veterana da Guerra do Iraque, que queria entrar para a vida
política de seu Estado e esse foi o gancho para a matéria. Ela havia perdido as duas
pernas, caminha em pernas mecânicas, e afirmou: “I was hurt in service for my country. I
was proud to go. It was my duty to go. And I would go tomorrow.” Algo assim como: “Eu fui
ferida em combate pelo meu Pais. Eu estou orgulhosa disso. Era meu dever. E se tivesse
que voltar novamente, eu o faria.” Esse caso jamais seria publicado pela mídia brasileira.
Os latinos, inclusive brasileiros, que jamais conseguiram criar uma Nação, diriam: Eres uma
huevona![10]  A melhor tradução que encontro agora é: És uma grande otária!

Logo após, veio o President’s Day, que neste ano caiu no dia 8 de fevereiro, uma segunda-
feira. Me impressionou o respeito do povo americano por todos seus presidentes ao longo
de sua historia, independente de partidos e idéias. Como aqui! Um garoto, aparentemente
superdotado, escreveu um livro sobre a vida de todos os ex-presidentes. Apesar do dia ser
um feriado oficial, a maioria das pessoas trabalha! Os ônibus cumprem o horário normal dos
dias de semana. Apenas os órgãos públicos e escritórios de grandes empresas ficam
fechados. Muitos funcionários de escritório trabalham algo em casa, procurando adiantar o
trabalho do dia seguinte. Que diferença em relação à cultura da Terra de Macunaíma!  

A chegada a São Paulo é chocante. Você sai de aeroportos enormes, com imensas esteiras
rolantes e chega a Guarulhos. Você sai de um clima febril de trabalho e chega aqui numa
segunda-feira de carnaval. Tudo parado, aquela indolência, aquela modorra, própria dos
trópicos latinos. Como se isso não bastara, você abre o jornal O Globo, 27-02-06, e lê a
manchete:
Na Ciência do Samba. Que aqui, o futebol é uma “arte” eu já sabia, mas, que o
samba é uma “ciência”, não!



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[1] Escrevo com todos esses risquinhos – acentos, til, trema e c cedilha – por cima e por
baixo de palavras para ater-me ao Vocabulário Ortográfico de 1943, oficial, obra de dois
fascistas, Vargas e Salazar. O tempo adicional que eles demandam na escrita é próprio de
paises onde as idéias de produtividade, eficiência e liberdade de expressão não calaram.
Nos Estados Unidos eles não existem. É claro que em outros idiomas, pelo menos
parcialmente, essas falhas também existem. Alem disso, alguns jornais americanos
escrevem Torino, ouros Turin, snow storm, ou snowstorm. A solução mais inteligente, que
será ditada pelo mercado, devera prevalecer para esses casos. Mas a vida seguirá, e novas
questões surgirão.

Quando você utiliza um terminal de internet da Biblioteca do Congresso, em Washington,
que obviamente não esta configurado para essas abobrinhas, qual a melhor solução: abraco
ou abrasso? Em uma, a grafia é mais próxima e na outra a fonética é idêntica. Não é por
acaso que antigamente se escrevia assucar pelo atual açúcar. Creio que o c cedilha foi
influeêcia do francês, que, assim como o português, estão condenados a uma morte
bastante rápida, ao contrario do espanhol; talvez, a última língua a desaparecer, se é que
isso venha a ocorrer no longo prazo. Afinal, é a língua de Cervantes.

A divisão hispânica da biblioteca, mesmo sabendo de minha condição de brasileiro, ao
enviar-me uma carta de agradecimento pelo meu livro que lhes doei, o fez em espanhol.

[2] Ao consultar o manager de uma academia de ginástica sobre seu horário de
funcionamento, ele me respondeu: seven days a week! Pensei, ipso facto, de fato os
Estados Unidos funcionam sete dias por semana e 24 horas por dia.

[3] A impressão que se tem quando se está nos Estados Unidos é que o Brasil não existe.
De fato, em 47 duas de estadia vi apenas três notícias, não muito expressivas: um bebe
abandonado pela mãe num saco plástico em Belo Horizonte; uma entrevista, que me
pareceu com um certo tom de gozação, com o Gilberto Gil, minister of culture – creio que
isso lá não existe; e o novo disco de Sergio Mendes, o boss da bossa nova!

[4] Como quase tudo no Brasil, isso é bastante relativo. As famílias de classe media para
cima livram seus filhos dessa obrigação, não por medo de guerra, pois essa possibilidade
aqui não existe, mas simplesmente para acelerar a carreira universitária de seus rebentos,
via corrupção no meio militar. Ademais, descobri recentemente que já havia antecedentes
nesse sentido desde a convocação para a FEB, em 1942.

[5] Utilizo a palavra latino no sentido que hoje se usa nos Estados Unidos, a saber, uma
abreviação para latino-americano.

[6] Uma curiosidade é a utilização da palavra “indocumentados” numa tentativa de traduzir
a palavra undocumented, suponho, tanto nos jornais escritos em espanhol como os em
português.

[7] Isso me foi possível detectar com um dos elementos de jardinagem – landscape –, do
complexo de apartamentos, quando lhe perguntei se recebia algum pagamento extra por
trabalhar naquele domingo de nevasca.

[8] Não me refiro aos ônibus expressos que ligam diretamente ao metrô, pois ai já entra
uma grande parte de funcionários de alto nível. Nos terminais desses ônibus existem
estacionamentos gratuitos onde deixam seu carros e se dirigem ao metro via ônibus
expressos. A idéia é evitar ao máximo o excesso de carros no centro da cidade, Washington.

[9] Um brasileiro nos contou que há colegas latinos que chegam a ter três ou quatro casas.

[10] Eu coloquei, na minha viagem anterior, uma situação similar a essa a um colombiano e
foi assim que ele me respondeu. E é por isso que o dia da vitória sobre os piratas das
FARC, ELN etc, se é que isso venha a ocorrer algum dia, no curto prazo, é imprevisível. Não
há um exercito, no sentido pleno da palavra. No longo prazo, deverá haver um processo de
desintegração dessas forças.