| Requiem para uma Princesa (1997) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email: josinomoraes@hotmail.com Ao receber a notícia sobre tão terrível tragédia retruquei: desta vez a imprensa marrom inglesa e, em segundo plano, a carcomida monarquia inglesa pagarão caro. Em realidade, os tablóides ingleses e seus congêneres no Primeiro Mundo tornar-se-ão o foco principal do debate nos próximos meses. Pena . que o custo para isso tenha sido tão alto. Afinal, Lady Di, abreviação inventada pelos tablóides ingleses para facilitar suas próprias vidas, cativou todo o mundo com seu drama pessoal. Mesmo com casamento arranjado , ela acreditou na sua capacidade de sedução. Ganhou dois filhos mas fracassou em sua ousadia. Lutou bravamente, até utilizando o artifício de um oficial inglês como amante, o qual revelou-se um ofídio mercenário, mas tudo foi em vão. Como diriam os marxistas, as condições objetivas e subjetivas lhe eram desfavoráveis. Agora, ao tentar recompor parte de sua vida emocional, chega-nos a terrível notícia. Quais as lições desta terrível tragédia? Gilles Lapouge, um jornalista francês, e um importante empresário da imprensa nacional, o Sr. Frias, afirmam que a culpa é de todos (1-9-97). Perdoem-me a franqueza, mas,é de todos, uma ova! Quem está em foco é a mídia, de um modo geral. No dia 2-9-97, o grande culpado teria sido o motorista, que teria ingerido uma quantidade equivalente de álcool a uma garrafa de vinho (não especificam se branco ou tinto!). No dia 10-9-97 surge a hipótese do problema ter sido agravado pelo uso de psicotrópico. Ora, a quase 200 km/h, convenhamos que estas são questões irrelevantes. Seis ou sete motocicletas de 500 ou 1000 cilindradas, ultra velozes, em pleno ato de caça constituem uma ameaça considerável. No dia 18-9-97, aventou-se a hipótese de um Fiat que teria ziguezaqueado na frente da triste Mercedes. Exuberâncias pós-modernas diriam os artistas. Nunca me interessei pela vida pessoal de tão ilustre princesa. O pouco que sei sobre sua vida foi inevitável na leitura de meus jornais. Mesmo lendo estes temas na diagonal, alguma coisa, sempre ficou gravada na minha memória. A última imagem que guardo de sua vida foi vendo-a, em foto, saindo de uma academia de ginástica com uma camiseta com a palavra "Harvard". Ela estava lindíssima.Interesava--me, sem duvida, suas percepções políticas. Claro, ela não podia saber muito com seus parcos 36 anos. Mas não decepcionava tampouco. Sua vontade de viver, apesar de seus dramas pessoais, contrastava com a figura carrancuda e mal humorada de seu ex-marido, candidato a futuro rei da Inglaterra, de inteligência duvidosa, por escolher como amante a mulher de um sofrido oficial inglês cujo brilho intelectual sempre nos passou despercebido. A idiotia não é exclusividade do Terceiro Mundo. Claro que aqui, o fenômeno é muito mais relevante. Como na maioria dos índices comparados a relação se aproxima de 1 para 10. A renda per capita, os acidentes, etc, com exceção da criminalidade, onde a relação se aproximaria de 1 para 100. Uma parcela da mídia no Primeiro Mundo explora e manipula este filão do mercado. Ah..., as fofocas e mexericos, que enorme fascínio exercerão sobre estas pobres mentes. Que estímulo para novas fantasias! O divã psicanalítico é um universo desconhecido e extremamente caro , obviamente. Nossa ingênua e imprudente princesa, não percebeu que o "grosso" da mídia com que lidava, no dia a dia, era basicamente esta. Ela era sua rainha e sua vítima em potencial. "Luxos", de parte da mídia do Primeiro Mundo, mas, que podem terminar em tragédias, como foi o caso. Os descobrimentos de Freud no século passado indicam ser o sexo o grande cerne explicativo para estes fenômenos. A projeção de fantasias pessoais nas vidas das pessoas da família real é uma saída tentadora e fácil. Esta parcela da mídia, empiricamente, percebe isso e explora este particularíssimo mercado. E, nesta sua atividade, aprofunda o nível de idiotia de uma parte considerável da população nestes países avançados. Agora, e a partir de uma tragédia tão tocante, estas questões certamente serão levantadas para o debate. E a mídia abaixo da linha do Equador? Ah, aqui a coisa é muito mais complexa. A idiotia no Primeiro Mundo deverá ser enfocada dentro de um contexto psicanalítico enquanto que aqui ela e a mídia que a gera só poderão ser compreendidas dentro de um contexto sócio-político. Em primeiro lugar, como já frisamos acima, a extensão do fenômeno é extremamente maior. É evidente, que onde a miséria abunda a questão não poderia ser diferente. Um amigo me contou ser-lhe inesquecível um pensamento de um grafiteiro italiano que rezava assim: não compre jornais, minta você mesmo. É meridiano que a mídia procure manter relações estreitas com o poder, mesmo nos países civilizados. Lembremos-nos do grande magnata da imprensa norte-americana William Randolph Hearst a quem a imprensa americana descreveu como tratando-se de um suposto quarto poder. Atribui-se a ele parte da responsabilidade na guerra E.U.A x Espanha em 1898. A mídia, quase sempre, manipula a opinião pública segundo seus interesses ou a serviço do poder e com este, procura manter laços estreitos, mesmo lá, acima da linha do Equador. O poder distribue benesses. Se, nos países capitalistas modernos este é um problema, imagine-se aqui, no sub-capitalismo brasileiro. A posse do aparelho do Estado permite destribuir concessões de rádios AM, FM, de emissoras de TV, etc, além da publicidade oficial, esta quase sempre com o pretexto de "esclarecer" a opinião pública sobre os grandes feitos do governo. O big-Sergio (esta versão "criolla" do velho Goebells), certamente, saberá avaliar melhor que nós, simples mortais, o poder de fogo de tais armas. Este dias , ele afirmou que seu partido, o PSDB, controla 95% do PIB e pretende dominar 95% de nossa geografia política! Pudera, com tal poderio econômico, neste horror do sub-capitalismo, a tarefa não será das mais hercúleas. Que relação endogâmica a do poder com a mídia. Se o aforisma popular assegura: o freguês sempre manda, imagine-se um cliente com tal poder de negociação. Historicamente, dois fatos, os mais relevantes a meu ver, me vêm a mente a propósito do tema. O primeiro foi quando a imprensa escrita se prestou para a divulgação das cartas de dois falsários visando indispor os militares, e em particular os tenentes, com Arthur Bernardes. O resultado foi fantástico, abrindo o caminho para a ruptura do acordo São Paulo-Minas e posterior ascensão de Vargas. O segundo foi servir a Vargas, somando-se ao já então programa governamental, via rádio, "Hora do Brasil" para a divulgação do seu plano Cohen (1937). Ora, os comunistas já tinham sido derrotados em 1935, no entanto, o texto afirmava peremptoriamente ser eminente o perigo vermelho. Este "joguinho" permitiu a Vargas o golpe de 1937 e mais oito anos de poder. Não me estenderei sobre a mídia oficial tropical, por tratar-se, evidentemente, de uma questão bastante indigesta. A partir do fortalecimento do rádio e televisão como meios de comunicações as coisas vieram a complicar-se ainda mais. Dispondo de um veículo capaz de atingir 100% da população o poder de fogo, em particular das TVs, tornou-se estratosférico. A imprensa escrita passou a segundo plano. É evidente que esta sempre atingiu uma parcela mínima da população brasileira, claro que a mais lúcida, como continua na atualidade (calculo em torno a 3%) porém, as TVs, e em particular a TV-Globo, vieram a modificar o quadro sensivelmente. Elas gerarão a capacidade de atingir e manipular os outros 97%! Se o grau de idiotia do brasileiro já era considerável, pois a maioria da população é semi-analfabeta, paradoxalmente o surgimento das TVs veio a aprofundar o problema. Ao invés de contribuir para criar o hábito do raciocínio e compreensão dos fenômenos da vida elas estimularam a preguiça mental, bestificando a imensa maioria da nossa população. Uma das facetas, onde se pode observar isto, é no estímulo ao ufanismo nacional. A idiotia ufanista tem duas vertentes: Brasil, o maior do mundo (para os esportes, etc, esta independe do governo de turno, ela é estrutural, provavelmente a partir do inicio do século) e o ufanismo governamental, este uma potenciação de otimismo, enquanto o desemprego grassa, a miséria se expande, e o governo prepara sua reeleição ele conjuga os verbos apenas no futuro: novos projetos gerarão milhares de empregos, de bilhões de dólares. Parece ser este o único tempo verbal que ele conhece. Enquanto que no prosaico presente, as invasões e favelização do país são os aspectos predominantes. O principal braço da indústria nacional, a paulista, dispensa funcionários há aproximadamente trinta meses, ininterruptamente. Que maravilha governar um país de caipiras (eufemismo para otários, elaborado pelo senhor presidente em sua última estadia em Portugal). Enfim, cara princesa, sua morte e de seus parceiros, provocou-nos uma imensa dor e indignação. Apesar disso, seu drama pessoal pareceu-me pequeno diante de nossa tragédia nacional: um país sem futuro e com uma mídia contribuindo para isso. |