Rico e Bêbado no Bordel (2004)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

Ao comentar com um amigo de infância a atual arremetida –  março, abril 2004 –  de vários
setores da nomenklatura -  Polícia Federal, advogados da Advocacia Geral da União, Banco
Central, Receita Federal, etc. –   por aumentos salariais, quando a relação dívida
pública/PIB tem um aumento sustentado nos últimos anos – um dos aspectos realmente
sustentáveis no país –, além do aumento de impostos, da criminalidade, etc., ele me
retrucou: você não se lembra da história do bêbado rico no bordel? Algumas vezes, ele até
mandava fechar a casa e todas as despesas corriam por sua conta. Ele se tornava a grande
atração da casa. As “meninas” o rodeavam pedindo-lhe drinks, dinheiro, jantares, e ele, na
sua condição de fraqueza momentânea, devido à bebedeira, a tudo cedia.

O bêbado rico em questão, cujo codinome é Lula Cardoso da Silva e cuja  bebedeira teve
origem em  um incidente à beira de uma cachoeira, em companhia de seus amigos Zé e
Miro 1%, no último dia 13 de Fevereiro, aparentemente entrou em um processo de
bebedeira crônica, debilitando-o progressivamente.

A riqueza em questão é enorme, fruto da ação de uma simples canetada no reino do
subcapitalismo brasileiro. O parlamento aqui é um mero adereço, legisla relativamente
pouquíssimo, depois que Vargas o castrou em 1930. Sua grande força reside em sua
capacidade de impedir a continuidade no poder do grande mandatário, do contrário, trata-se
de algo absolutamente insignificante para o curso do país. Pode, no máximo, tirar do poder
um falso caçador de marajás  para entregá-lo a um topetudo mineiro, que encena paixões
por mocinhas, algumas até sem calcinhas, além de fuscas refrigerados a ar! O poder da
canetada, ao contrário, é quase que infinito. Se não existe dinheiro, como  sempre é o
caso, endivida-se; afinal, esse é um problema para as próximas gerações, e ademais, as
crianças não votam! O custo da conta, até aqui, é da ordem de 10% do PIB, o equivalente
a toda a produção agropecuária  anual do país.  Essa é a história do país, após os
ensinamentos do petiço gaúcho, nos últimos setenta anos.

O superego de nosso herói chama-se FMI, mas sua tarefa é hercúlea no momento em que
escrevo. O FMI é bastante condescendente e adora procrastinações, mas também tem lá
suas restrições, sobretudo após o recente caso da Argentina.

As “meninas” são tão sedutoras! Uma delas, muito jovem, nascida de fato em 1984,
moreninha e audaz, de nome MST, pede verbas e mais verbas, eufemismo do reino para
impostos, gerados pelos debilitados burros-de- carga. E o pior é que ela, estimulada por
seu proxeneta, que se diz economista, nunca se diz satisfeita: diz que continuará
infernizando nosso pobre bêbado e seu reinado. Um  caso notável de extrema
concupiscência.

A noite está apenas começando e o whisky, 12 anos, of course, corre solto. Na vizinhança,
alguns casebres com antenas espinha-de-peixe sobre os telhados, habitados por burros-de-
carga (trabalhadores, pequenos empresários, agricultores, autônomos, aposentados do
INSS, etc.)  assistem ao Jornal Nacional ao mesmo tempo em que pagam impostos, via
eletricidade, para alimentar TVs, lâmpadas acesas, chuveiros, e gás de cozinha, este último
ítem, como se já  não fosse suficiente a carga, acrescido de um componente salgado para a
Petrobrás, leia-se também Petros. Os que beliscam algo e fumam adicionam  uma pitada a
mais  de  impostos.

Fátima Bernardes, no vídeo, está esplendorosa. No entanto, cabe a ela, nessa noite, dar
uma notícia um pouco indigesta: o Brasil caiu da 8ª para a 15ª posição no ranking das
economias mais importantes desde que a “democracia” retornou ao país em 1985. Os
telespectadores sentem um forte impacto. No entanto, a apresentadora, em seguida,
chama a economista da rede para explicar aquele desastrado número. Miriam Leitão,
calmamente, explica que a coisa não é bem assim: o PIB é calculado em reais e logo
convertido em dólares e, nessa transfiguração, existe a taxa de câmbio, ou seja, se o dólar
não estivesse a 3 reais, a coisa seria bem diferente; por exemplo, se o dólar estivesse
valendo hoje apenas 1 real, a economia brasileira seria três vezes maior!  Nossos burros-de-
carga respiram aliviados. Analisando os números em sua totalidade,  vejo que nessa
hipótese o Brasil estaria disputando, com a Itália e a China, a 6ª posição! O pequeno
detalhe,  que ela omitiu, é que ninguém, hoje, no país, acha que o real deveria estar
abaixo de 3; até pelo contrário, os exportadores de manufaturados, como o atual
presidente da GM, pedem desvalorização! Como os preços da soja e demais commodities
estão altíssimos, graças a um crescimento fantástico da economia internacional e
problemas na oferta, o câmbio está em equilíbrio; pobres exportadores industriais!

Na casa em foco, a noitada continua vívida. Uma das “meninas”, de nome Receita Federal,
pede mais e mais, gerando um pequeno desconforto no clima festivo, mas nosso herói, num
gesto de magnanimidade, sempre com o chapéu alheio, obviamente,  concede-lhe um
abono de R$ 1047 e a paz retorna à casa. Em 1789, Luís XVI e Maria Antonieta foram parar
na guilhotina por muito menos que todo o relatado aqui, mas, na época, não havia
televisão –  essa a “piccola differenza” .