| A Rótula (1997) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email: josinomoraes@hotmail.com Há pouco mais de um ano, lia nos jornais o grande projeto tucano para melhorar o trânsito da cidade. As eleições estavam próximas e a questão parecia crucial, pelo menos para a grande corrida às urnas. O então secretário de transportes, pré-candidato a prefeitura, parecia-me um brilhante engenheiro, formado pelo ITA, escola respeitável para as condições do país. Pensei: ele e sua equipe, embasados em experiências internacionais, etc, devem dispor de um estudo minucioso sobre o tráfego da cidade. . Ledo engano. Após um mês de sua implantação,eu observava uma clara deteriorização do problema. Sabe-se hoje, graças ao IBGE e a despeito de declarações de nossas autoridades , que Campinas tem um crescimento pífio nesta década, em torno de 1% ( abaixo da média nacional) fato este , que veio a atazanar bastante a vida de alguns suplentes de vereadores. O que realmente cresce a ritmos alucinantes, como em todo o país aliás, são as favelas, invasões dos sem-teto e homicídios. Não disponho de dados sobre o aumento da frota, porém este não deve ser muito significativo pois ao mesmo deveríamos deduzir aproximadamente 320 carros|mês, de um total de 800 roubados, que são conduzidos diretamente para os desmanches. De qualquer forma o crescimento seria irrisório em um mês. Afinal, Campinas tinha um trânsito relativamente leve pelo seu porte e, paradoxalmente, as condições tinham piorado. Porque? Após aproximadamente um ano, refletindo, esporadicamente é claro, sobre a questão, creio haver compreendido a raíz do problema. O projeto tinha, até certo ponto, o pomposo nome de rótula. Como engenheiro estrutural pareceu-me estranha a associação. Afinal, rótula é simplesmente um ossinho no meio da perna, uma articulação que permite o movimento de rotação entre suas duas partes , um grau de liberdade a mais em relação ao engastamento. Qual sua relação com a engenharia de tráfego? Consultei o Caldas Aulete, na ausência do antigo e desconhecido Morais, procurando a acepcão que poderia ter sugerido a associação e ele me respondeu : pequeno osso móvel curto e discóide sito no joelho na parte dianteira da articulação do fêmur com a tíbia. O Aurélio, ainda que um pouco menos preciso, confirmava a informação. O "x" da questão era evidendemente a idéia de disco. Não tenho conhecimentos sobre engenharia de tráfego, mas dada a aridez, por não dizer a total escassez de debates, nesta área, que afeta permanentemente o cotidiano de todos, decidi-me por levantar estas reflexões. Se não me falha a memória, lembro-me que nas minhas andanças pelo Primeiro Mundo, parecia existir a idéia de anéis viários de circunvalação nas grandes cidades. É lógico que quem vai de norte ao sul ou leste ao oeste não deveria conturbar o trânsito de uma cidade de 10 milhões de habitantes e também, para o conforto do próprio viajante. Então, provavelmente, o cérebro humano elaborou a idéia de um anel rodeando estas cidades. É evidente que quem sai de Curitiba indo para o Rio de Janeiro não deveria entupir a marginal do Tiete. Que aconteceu com o trânsito de Campinas? Em primeiro lugar, o nome rótula é claramente impróprio. Caminha-se na periferia do disco e neste caso existe a palavra anel, muito mais espeçifica para descrever a situação O curioso é que o principal objetivo do projeto rótula, propalado na época, era o de desafogar o centro da cidade. Qual foi a solução proposta e implementada? Criou-se um anel e um contra-anel justamente no centro da cidade!! Inviabililou-se o trânsito no centro da cidade. Pitorescamente, a câmara de vereadores, por unanimidade (sic), deverá aprovar um projeto de rodízio de veículos. Obviamente, não obterão nenhum resultado prático. A alternativa é clara: ou se desmonta a armadilha dos anéis ou se proíbe o tráfego de veículos no centro da cidade. Os veículos tiveram que ater-se a estes anéis, concentrando-se o tráfego e subutilizando a infra-estrutura viária gerada por recursos públicos ao longo de tantos anos. O comércio situado nos ditos anéis começou a receber um tráfego intenso e o excluído, a ausência quase total. Os carros circulam em alta velocidade por estes anéis, diminuindo a segurança e dificultando a possibilidade de estacionamento. E ao comércio excluído coube-lhe o oblivio. É fantástico. Conseguiram o que do ponto de vista da lógica parece o mais díficil: prejudicar a todos . E agora? Mãos à obra aos remendos, começando por um bairro central: o Cambuí É difícil. O único aspecto positivo destas mudanças foi o surgimento, ainda que tardio, dos radares. Estes exercem um papel amplo, geral, e irrestrito na educação das pessoas, além do seu óbvio papel de aumentar a arrecadação pública. E as lombadas? Que horror. Lembro-me apenas de haver-las visto, no Primeiro Mundo, dentro de uma base militar, no Texas. Há aproximadamente dois anos e a pedido da população local fizeram uma no "tapetão" (pista de alta velocidade que une a cidade à Barão Geraldo). Após dois dias uma família inteira, de quatro membros, perdeu a vida. Claro, a população tem votos, a racionalidade não. Atualmente, a prefeitura se gaba de que instalará mais oitocentas lombadas! E pensar que os economistas sempre nos lembram que os recursos são escassos. Data venia, fica aberto o debate. |