| Os 50 Anos do Suicídio de um Assassino (2004) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email: josinomoraes@hotmail.com Um artigo do publicável Sr. José Sarney, um dos mais genuínos espécimes da nomenklatura política familiar do País (vide seus dois filhos), no dia 6 de agosto de 2004, no jornal Folha de S. Paulo, relatando, de uma forma light, próprio de sua privilegiada condição social, que lhe permite gozar de inúmeras e milionárias aposentadorias públicas, a verdade sobre a tentativa de assassinato do Sr. Carlos Lacerda e o conseqüente assassinato do Major Rubens Vaz, nos estimulou a contar aspectos conhecidos por raríssimas pessoas no País. A informação do Sr. Sarney fundamenta-se no trabalho do provável jornalista José Louzeiro: O Anjo da Fidelidade, A História Sincera de Gregório Fortunato (Editora Francisco Alves, 2ª edição, 2001). A primeira edição é de 2000. Apesar de seu título, com o óbvio apelo de marketing, o trabalho é bastante interessante. Outro aspecto que chama a atenção sobre a formação teórica do autor é quando ele afirma que Getúlio lia Adam Smith e Max Weber! (pág. 37). Nao cita Augusto Comte. Há alguns anos, quando pesquisava livros em sebos de Campinas, me deparei com uma obra importantíssima para a compreensão de nosso passado: Ascensão e Queda de Getúlio Vargas, obra esta composta por três volumes, de autoria de Affonso Henriques, impresso em 1966, um trabalho gigantesco que demandou nada menos que doze anos de pesquisa e escrita; basicamente elaborado na Biblioteca do Congresso em Washington, por mais paradoxal que pareça. O autor, que apoiou a Revolução de 1930, redime com essa obra seus erros de juventude, como indicam suas primeiras palavras: “Este livro foi inspirado por um grande erro e uma grande injustiça praticados pelo autor, erro e injustiça que não desejamos que sejam repetidos por outros cidadãos bem intencionados”. Parece ser uma sina nacional errar na juventude, pois, afinal, na nossa geração, muitos dos nossos atuais amigos liberais foram comunistas. O trágico é que a maioria de nossos ex-amigos ainda continua “comunista”, embora a palavra tenha perdido seu sentido original. Hoje, quase sempre, ser “comunista” significa simplesmente viver de fartos impostos; ser membro da nova classe de privilegiados, ou seja, da nomenklatura. Eles não têm mais ideais. Apenas prosaicos estômagos. Que vilania! Os que detêm o poder central apenas com sua política externa gostam de fazer fusquinhas para os nossos amigos americanos. O pai de Getúlio Vargas foi o General Manoel Nascimento Vargas, que lutou na Guerra do Paraguai. Indivíduo saudoso da escravidão, dizia coisas como esta: “Os negros tinham o tratamento que mereciam: relho no lombo e ferros a prender-lhes os pés, os braços, o pescoço.” (Louzeiro, obra citada, pág 38). Getúlio teve quatro irmãos, dois mais velhos, Viriato e Protásio, e dois mais jovens, Spartaco (Pataco) e Benjamim (Beijo), todos do sexo masculino. Eles nasceram em São Borja, no Rio Grande do Sul, perto da fronteira com a Argentina, através do Rio Uruguai. Reproduzimos um trecho do livro do Sr. Affonso Henriques, pág 53: “Quando Getúlio Vargas se encontrava em sua adolescência, seu pai o enviou para estudar em Ouro Preto, a veneranda cidade mineira (então capital do Estado), onde já se encontravam seus irmãos Viriato e Protásio. Nessa cidade, os três, reunidos, assassinaram, a tiros, um estudante de São Paulo. Os detalhes desse homicídio, que, durante muito tempo, foram deturpados para favorecer os Vargas, foram publicados integralmente pela Folha da Manhã de 15 de janeiro de 1930, e reproduzidos depois pel´O Estado de São Paulo do dia 25 do mesmo mês.” O assassinato se deu em 1917 e demorou exatos 33 anos para vir à tona para o País; isso para a mísera parte letrada da população. Até então, apenas Ouro Preto acompanhava com consternação tal vilania. Apesar de tudo, é provável que esse fato tenha contribuído para a derrota do Sr. Vargas nas eleições presidenciais daquele ano. Coisa de pouca valia, pois o Petiço, apoiado pelo Exército Brasileiro, tendo à frente seu grande amigo Góes Monteiro, deu o golpe que viria a destruir todas as nossas possibilidades de futuro. A vitória de Vargas significava o triunfo definitivo do positivismo comteano, que já em algumas oportunidades, desde o Império e através de isolados putsch´s militares, já havia tentado, em vão, derrubar a monarquia e implantar sua ditadura republicana. Posteriormente, a Proclamação da República foi uma vitória de “meia-boca”, pois muitos oficiais não comungavam ainda com o apostolado positivista, e muitos civis, liberais influentes, Ruy Barbosa, dentre outros, gozavam de parte considerável do poder. Permitam- nos um pequeno parêntesis: a historiografia brasileira é extremamente complexa quanto a sua compreensão, pois ela é, basicamente, elaborada por marxistas ou filomarxistas, que não relatam os fatos, mas apenas se preocupam com suas interpretações e adjetivações. Um verdadeiro quebra-cabeça. Retornemos ao assassinato do jovem paulista estudante de Direito Carlos de Almeida Prado Junior: segundo um ouro-pretano, o primeiro encontro entre Carlos e os Vargas e Baltasar do Bem teria se dado no bilhar Helena, onde os Vargas estariam judiando de um jovem mineiro. O jovem Prado, de forte porte físico, tomou as dores da vítima e os afugentou. Segue o relato, reproduzido por Affonso Henriques: “No dia seguinte, toda a cidade sabia que os gaúchos haviam condenado à morte Carlos Prado. Este, avisado, não teve medo, e sabendo que à noite seria agredido, saiu à rua para seu habitual passeio. Ao passar perto da ladeira São José, foi alvejado a tiros pelos estudantes Viriato, Protásio, Baltazar do Bem, Kauffmann, Getúlio e um outro cujo nome não me lembro. Estavam esses estudantes escondidos atrás de um muro ali existente e atiraram de surpresa, matando Carlos Prado, atingido por nove projéteis. Foram os assassinos pronunciados e Viriato ocultou-se numa casa comercial, dali saindo dois meses depois, conduzido por Benjamim Tôrres, que há cinco anos (a carta é de 1930) foi assassinado no Rio Grande do Sul por capangas da família Vargas. Era juiz de direito em Ouro Preto. O poeta, hoje deputado, Augusto de Lima protegeu tão escandalosamente os gaúchos que o Governo de Minas Gerais o afastou. Getúlio, por ser menor de idade, foi ´despronunciado´ pelo famigerado juiz e seguiu para o Rio Grande do Sul, acompanhado por seu pai.” O sobrinho da vítima, Fausto de Almeida Prado, advogado, confirma integralmente o relato, precisando apenas a data e nome completo da vítima. Devemos precisar que o assassinato do grande médico Benjamim Tôrres encontra-se bastante detalhado na obra de Louzeiro. Isso ocorreu de fato em 12 de março de 1915. Louzeiro apresenta uma versão ligeiramente diferente dos fatos. Segundo ele, o primeiro encontro entre as partes teria um fundo político, do qual teria partido a primeira animosidade. Os gaúchos, florianistas e castilhistas, ligados ao Partido Republicano Rio-Grandense, PRR, teriam organizado uma passeata cujo mote era: “Morte a maragatada!”. Os maragatos eram os federalistas, inimigos dos Vargas etc. Logo surgiu uma terceira facção, de tendência anarquista e liderada por Carlos de Almeida Prado, que, à frente de seu grupo, gritava o refrão: “Castilhistas e maragatos são farinha do mesmo saco, lambedores de botas, comedores de tripas!”. O que não bate é essa história de anarquistas, principalmente paulistas, em Ouro Preto, na época. Os anarquistas surgiram na cidade de São Paulo, por influência da migração européia, junto à classe operária, e formaram a base do nascente Partido Comunista do Brasil (PCdoB), fundado apenas em 1922. Ora, Carlos era filho de um líder republicano paulista, suponho que membro do Partido Republicano Paulista (PRP), provavelmente um liberal, dentro das limitações da época e das idéias no País. Um segundo encontro teria se dado na manhã de 7 de junho de 1897 (ele não precisa a data do primeiro encontro), e teria ocorrido quando os gaúchos passaram pela Rua São José e avistaram o paulista e mais três colegas. Eles teriam tratado de surpreendê-los em frente a uma loja. Prado teria feito uso de um stick (bastão, bengala em inglês), uma arma de defesa pessoal, e Viriato e Balthazar apanharam bastante, em bom português. Eles teriam retornado à pensão sangrando e cheios de dores, e teriam reorganizado um grande grupo e retornado, no mesmo dia, às 6 da tarde, na mesma Rua São José. Getúlio, com apenas 14 anos, fez quentão de acompanhá-los. Carlos teria mostrado o stick e Viriato e Balthazar sacaram as armas. Os parceiros de Prado o teriam abandonado (que canalhas!) e ele teria decidido desarmá-los sozinho, com uma bengala! Viriato e Balthazar dispararam. A rua era conhecida como uma ladeira, como relata o habitante local no texto acima. Por que eles teriam retornado a Rua às seis da tarde? Qual a certeza de reencontrar o “inimigo” no mesmo local? A grande verdade é que tratou-se de um caso típico de tocaia, método característico dos Vargas e outros em São Borja; logo mais relataremos o atentado da Rua Toneleros, outro exemplo de tocaia. O processo terminou em nada, dada a grande força política do General Vargas, Pinheiro Machado e outros. Louzeiro, apesar de citar vaga e imprecisamente a obra de Henriques, definitivamente não a conhece a fundo, como seria conveniente. Esse foi o “batismo de fogo” do Petiço, co-autor de um homicídio à traição, com apenas 14 anos. O grande sonho de Getúlio era ser um militar, um ídolo admirado e respeitado pelas massas. O triunfo dos militares na recente Guerra do Paraguai ainda estava latente. Ele chegou a matricular-se na Escola Militar de Rio Pardo, mas logo se desligou por motivos que Henriques não revela. Sem dúvida, sua inferioridade física teve um importante papel nessa questão: Getúlio não era apenas um baixote; suas pernas eram excessivamente curtas. Isso terminou desenvolvendo em Vargas sua grande doença: seu complexo de baixa estatura, daí seu apelido de Petiço, adjetivo que se aplicava também aos animais de baixa estatura. Relata Louzeiro, na página 295: “No Catete, os fotógrafos recebiam instruções do DIP para não fotografá-lo na posição normal. Deveriam pegá-lo de baixo para cima, afim de que parecesse sempre maior.” E mais: “O interessante é que, para essas reuniões íntimas (idas aos bordéis), ele procurava convocar os amigos, mas todos da sua estatura.” Há uma obra de um psiquiatra brasileiro, Dr. Cláudio de Araújo Lima, Mito e Realidade de Vargas, sobre essa questão. Essa obra deve ser interessantíssima, pois referenda os extratos mostrados por Henriques. Não cabem dúvidas quanto à personalidade doentia de Getúlio, tão comum aos ditadores. Há exatamente 50 anos, Getúlio Vargas encontrava-se encurralado pela oposição, com inúmeras denúncias de corrupção etc. Tudo aquilo que ele havia gerado desde 1930 (corrupção, populismo, nepotismo, despotismo etc.) parecia vir à tona como uma avalanche. O imortal Vargas, que havia conseguido corromper até a Academia Brasileira de letras para permitir seu ingresso nesta, encontrava-se numa corda bamba. Para piorar sua sina, o contato de nossas forças armadas com o exército americano, desde o final da II Guerra Mundial, trouxe certos ventos democráticos aos nossos soldados, debilitando sensivelmente o seu apoio por parte dos militares, até então irrestrito. Afinal, o fascismo, que constituía o cerne do cérebro de Getúlio e de nossos militares, havia sido fragorosamente derrotado. Qual a saída? Coube à inteliguentsia de São Borja urdir a saída: assassinar o principal líder da oposição, afinal, seus dois irmãos mais velhos, Viriato e Beijo, eram assassinos matriculados, quando não mandantes, via capangas, de crimes horrorosos. A trama foi urdida por Beijo, pelo General Mendes de Morais e pelos Deputados Danton Coelho, Edvaldo Lodi e Lutero Vargas, filho de Getúlio. Apesar de o Petiço não ter vocação para nenhum prêmio Nobel, tampouco era um débil mental para pensar em tal “projeto”, para utilizar a palavra que Beijo deu à operação. O estilo era sempre o mesmo: a tocaia. O instinto político de Getúlio, caso estivesse ciente, o levaria a ver no “projeto” seu próprio fim, como de fato foi o caso. Um dos componentes da personalidade doentia de Getúlio era a propensão ao suicídio. Em 1932, ao ver cercado o Palácio do Catete por tropas do Exército, e acreditando que elas vinham a depô-lo, muniu-se de um revólver, escreveu uma carta-manifesto à nação e declarou que não se entregaria e, em última instância, poria fim à própria vida. Na verdade, as tropas vinham para protegê-lo. Isso consta no depoimento do General Góis Monteiro e é confirmado por ninguém menos que Osvaldo Aranha. |