Surto  de  Idiotia (2003)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

“O que caracteriza a demência é a desproporção entre os propósitos e os
meios”, Napoleão Bonaparte - apud Jorge Geisel.

Introitus       

Refiro-me ao  surto psicótico da mídia brasileira, recentemente aflorado
durante a Guerra do Iraque. A Folha de São Paulo registrou este fato histórico
como “O Ataque do Império” e O Estado de São Paulo, como “A Guerra de
Bush”, ou, “A 2ª Guerra do Golfo”.  

Há surtos que têm datas marcadas, como no caso da Copas do Mundo ou nos
seus preâmbulos, como na difícil classificação em 1989. Naquele então, o surto
de idiotia derrubou um Boeing da Varig, matando muitos inocentes. Depois de
alguns anos, alguém escreveu um livro elogiando a perícia, na aterrissagem,
em cima do mato e sem querosene, do piloto brasileiro. Aqueles são os
momentos de glória de Galvão Bueno, um dos principais manipuladores da
idiotia nacional. Outro surto periódico recente dava-se quando Ayrton Senna
corria: Brasillllll....illll...illl!!!!!

Do contrário, os surtos são imprevisíveis; dependem, sobretudo, do andar da
carruagem internacional. A razão da fixação nas questões internacionais é
explicada pelo conceito freudiano de deslocamento: um dos mecanismos de
defesa. A culpa é sempre dos outros. Não observam a velha sabedoria ibérica:
“Macaco, olha teu rabo; não o do vizinho.” A necessidade de divãs faz-se
premente. Há um escritor argentino que atinou, recentemente, com esse
aspecto de deslocamento de culpa em relação a história recente da Argentina.
Sob outra ótica, trata-se da teoria leninista do imperialismo ou de sua cópia
latino-americana mais recente, denominada "Teoria da Dependência",
formulada pelo alemão André Günder Frank, e da qual seu mais famoso
epígono foi El Comandante Cardoso (FHC).

Há um aspecto extremamente interessante que se  observa num grupo
particular de manipuladores da idiotia nacional: os âncoras e apresentadores
de jornais televisivos. Eles não informam os fatos imparcialmente, sem
sentimentos, ressentimentos e opiniões pessoais, como seria de se esperar.
Eles induzem a leitura dos fatos, de acordo com as suas opiniões. Em primeiro
lugar, vem a inflexão da voz. Logo, as expressões faciais (movimento de
sobrancelhas, sobretudo), movimento de braços, giro de corpo em algumas
situações etc. É sensacional. Parece uma peça teatral de pantomima. Que
treinamento fantástico. Durante a guerra do Iraque, o melhor exemplo foi
Sandra Annenberg, da TV Globo. Boris Casoy, com sobrancelhas ágeis,  é um
mestre nessa matéria.      

A idiotia manifesta-se em cinco facetas: a demência, o ufanismo, a
necessidade de deslocamento da culpa, o despistamento ou diversão e a dupla-
mensagem. Devemos a descoberta da manifestação da dupla-mensagem na
idiotia da mídia nacional ao psicanalista brasileiro Heitor de Paola, baseando-
se nos estudos sobre as causas externas da esquizofrenia, do psiquiatra inglês
Laing. O conceito de demência encaixa-se perfeitamente nesta máxima do Prof.
Ricardo Bergamini: “O Brasil é um conjunto vazio que acredita ser o centro do
universo”. Algumas vezes, essas facetas não são bem definidas, pois, em
algumas oportunidades, há um fenômeno de intersecção, como nos casos de
"demência e ufanismo", "demência e dupla-mensagem" etc. A idiotia pode ser
associada a uma mão; não àquela de FHC indicando 5 prioridades: emprego,
educação etc., para manipular a idiotia nacional e vencer eleições, mas sim
uma mão cuja a palma seria a idiotia e os dedos, as cinco manifestações
citadas acima.

Reproduzo, sucintamente, em que consistem as duplas-mensagens (double
messages), com alguns exemplos meus nesse contexto. Elas são mensagens
contraditórias, mutuamente exclusivas, que estimulam uma total confusão
mental dos pacientes e, em casos extremos, conduzem à catatonia. Seriam
como um adestrador de animais que, quando o animal obedecesse seus
comandos, receberia um carinho e, no momento seguinte, comportando-se da
mesma forma, receberia um castigo. Tratando-se de seres humanos, é algo
como: "a guerra explica a alta do câmbio hoje e sua queda amanhã; a
especulação explica a alta da bolsa hoje e a queda amanhã; a guerra explica a
alta do petróleo hoje e a queda amanhã". Este processo conduz a uma total
destruição da capacidade de raciocínio, de pensar a relação causa-efeito. Isso
é o que a mídia brasileira faz permanentemente: idiotiza a sociedade e se auto-
idiotiza. Além disso, destrói a memória nacional. Trata-se de um processo
macabro.        

A primeira manifestação escrita do ufanismo deu-se em 1618 com a obra:
“Diálogos das grandezas do Brasil”, de Ambrósio Fernandes Brandão. São
momentos em que o motorneiro d´El Comandante Cardoso, ou marionete de Zé
Dirceu e Comitê Central, afirma que já é hora do Brasil assumir “sua grandeza”.
Aquela grandeza que leva alguns a dar-lhes as boas vindas chamando-os de
José, como em março de 2003, em Quito, não em Nova York. Ou então, aquela
grandeza que o faz referir-se ao grande presidente George W. Bush como seu
“companheiro”. Aí, uma manifestação de demência. Ora,  seu companheiro
natural es El Comandante Fidel, el del paredón, assassino público internacional
de 17.003 cubanos em procura de liberdade - o número é fornecido por liberais
brasileiros; ou ainda, aquela  grandeza que, quando os militares deixaram o
poder, o Brasil era a oitava economia do mundo, e hoje, depois que sua
corriola tomou o poder, em 1985, é a décima segunda. Logo mais, será a
décima quarta e assim por diante. Há outros dados impressionantes: a
evolução das exportações brasileiras no conjunto do comércio internacional,
entre 1985 e 2001, caiu de 1,31% para 0,95%, ou seja, uma queda de 28%;
enquanto isso, o México aumentou 88% e a China, 208%! A renda per capita,
entre 1989 e 2002, caiu, em relação a catorze países avançados, de 31% para
10%! Será a tal da globalização assimétrica? Bem diz o Prof. Ricardo
Bergamini: "Avança Brasil! (para o abismo)"!  

Dia 18 de janeiro de 2003: devido à descoberta de 11 ogivas vazias no Iraque,
a manchete da Folha dizia: “Temor de guerra empurra preço do dólar”.
Nenhuma consideração em relação ao comportamento da balança comercial,
déficit em conta corrente, novos empréstimos em dólar ou euro, taxa de juros,
movimento de capitais, declarações desastradas de Zé Dirceu ou Marco Aurélio,
ambos amigos do peito de Fidel etc. O temor da guerra explicava a alta do
dólar. O Estado dizia: “Tensão pré-guerra abala mercados no mundo”. O vai-e-
vem corriqueiro no mercado de ações internacionais gerava, aqui, o factóide do
dia e a sua correspondente  estúpida explicação. À primeira vista, pode parecer
tratar-se de um caso de demência no tocante às questões econômicas, mas
aqui, há uma intersecção com o aspecto da dupla-mensagem, prevalecendo,
sobretudo, este último, como mostrarei mais adiante. Dois dedos cruzados.     

Dia 5 de fevereiro: O Estado publica, em primeira página, uma grande foto com
figuras sinistras, vestidas de branco, com o título: “Vestidos como homens-
bomba, soldados participam de desfile militar na cidade de Mosul, norte do
Iraque.” “Soldados?” Soldados lutam com lisura nos campos de batalha. Eram
imbecis fantasiados de terroristas. O recado de Saddam, "Infernizaremos o
mundo com nossos terroristas", em seu desespero de evitar a guerra e sua
própria e benéfica destruição, era aqui reproduzido com grande entusiasmo
pela mídia nacional. Saddam acusa os EEUU de estar de olho no petróleo etc.
As ameaças de Saddam eram aqui repetidas, com fé religiosa, por 90% da
população brasileira. Afirmavam angustiados: “O que será de nós com essa
guerra maluca desse Bush? As próximas vítimas seremos nós, devido à
Amazônia e ao nosso precioso estoque de água doce!”. Era o que se ouvia. A
mídia brasileira, basicamente marxista e idiotizada, havia logrado seu objetivo.
A filigrana que não batia era que o Pentágono, a sociedade americana e a
maior parte do mundo desenvolvido duvidavam da veracidade das teses de
Saddam. E a terceira divisão de infantaria, com seu heroísmo, a bem da paz e
da prosperidade internacional, estava disposta a entrar em Bagdá. E assim o
fez em 9 de abril de 2003, após três semanas de guerra. Esta Guerra do Iraque
poderia ser chamada, com uma certa nostalgia histórica, de A Guerra de 3
Semanas.

Dia 14 de fevereiro: a manchete d´O Estado era: “Expectativa sobre a guerra
derruba mercados; preço do petróleo dispara”. O dólar subia e a bolsa caía. Um
horror. O ufanismo nacional só se plasma no caso contrário, i.e., dólar caindo e
bolsa subindo.  É um dos ápices de manifestação da demência nacional.
Pesquisamos toda a mídia internacional e não encontramos nenhuma manchete
similar. O verbo disparar vinha por conta de um mísero aumento no barril de
petróleo. Tudo contribuía para o clímax anti-guerra.       

Dia 15 de fevereiro: O Estado afirmava: “Lula está disposto a falar com Bush
sobre a Guerra”. Aqui, um exemplo de intersecção entre a demência (falta de
senso do real) e o ufanismo: ele se rebaixaria, pois se utiliza a palavra
disposto ao dirigir-se ao presidente da maior potência da história moderna. A
demência, muitas vezes, conduz ao delírio. “Quem è esse José? A capital de
seu país é Buenos Aires?”, retrucaria Mr. Bush. No dia seguinte, a Folha, jornal  
de maior tiragem nacional, acusa a mídia americana de esconder as "marchas
pela paz”, cheias de bandeiras vermelhas, completamente desbotadas, cor-de-
rosa, brancas. Meia dúzia de comunistas e adolescentes, aqui e acolá, anti-
globalização - o que significa isso? Há algum documento sobre esse negócio
para podermos entender alguma coisa? E ainda publica, na primeira página,
uma foto pela “paz”, que ocupou nada menos que 40% da primeira página.
Haveria algum jornal sério, do mundo civilizado, capaz de algo similar a isso?

Durante os primeiros 20 dias de março, as manchetes políticas mais hilárias
foram: “Lula propõe rediscussão do papel da ONU”; ”Lula expõe receios a
Blair”. As principais manchetes econômicas enfatizavam que o dólar subia, o
petróleo subia, mercados financeiros caíam, tudo devido à possibilidade da
guerra, até o dia 19, quando a Folha deu: “Especulaçâo dá uma folga, e
petróleo cai 9%”. Que poder tem essa tal de especulação, não apenas o
suposto, nos mercados em si, mas, sobretudo, como argumento para os
jornalistas brasileiros! Faz-me lembrar aquela corriqueira explicação para as
quedas na bolsa brasileira: realização de lucros. E mais: “Fed decide esperar
guerra e mantém juros em 1,25%”. Eles explicam até o que se passa nos
cérebros monumentais do Sr. Alan Greenspan e de seus assessores. A que
nível de audácia conduz a demência!


1ª semana da guerra

Dia 20: início da ofensiva das forças da coalizão. Lula pronuncia um discurso
que, entre outros despautérios e delírios, afirma: “Desde que assumi a
Presidência, tomei uma série de iniciativas em busca de uma solução pacífica
para a crise, com o pleno cumprimento, pelo Iraque, das resoluções do
Conselho de Segurança. Nesse sentido, conversei, pessoalmente ou por
telefone, com vários líderes e governantes do mundo.”

Dia 21: A Folha afirmava: “Bush tenta mostrar tranquilidade”, sem trema,
desrespeitando Getúlio. Bravuras do Otavico e de seus subordinados. A
manchete insinuava que Bush tremia diante da poderosa guarda republicana de
Saddam, mas tentava dissimular. E ainda: "Governo usa guerra para acelerar
reformas”. A guerra tinha relação com as “reformas”. Era o paroxismo da
idiotia.  As “reformas” que FHC já fez durante 8 anos e que o PT continuará
fazendo. O país fingir que faz reformas não é tão grave. O pior é o FMI fingir
que acredita. Ou a idiotia teria contaminado os técnicos do FMI? Não se deve
duvidar. Descobri, recentemente, através de um velho conhecido, Henrique
Ganuza, argentino, economista, comunista, membro da ONU, que a ONU deve
ser um importante antro de comunistas. Não é à toa que FHC ganhava tantas
comendas. Cuba e a Líbia fazem parte da Comissão de Direitos Humanos!

Dia 22: no dia do maior bombardeio da história, creio, O Estado dizia: “Guerra
leva mercados à euforia”. Eis um exemplo de dupla-mensagem. Agora, a guerra
explicava a baixa do petróleo, do dólar, o risco-país e alta do C-bond. A TV
Globo mostrava, com regozijo, Saddam reunido com seus generais, enquanto
as TV´s internacionais mostravam a mesma imagem ressalvando que elas
eram fornecidas pela TV iraquiana. Longos artigos foram publicados sobre a
estratégia da atrocidade. O editorial da Folha sob o título: “O tombo da águia”
dizia, entre outras coisas: “Os juros americanos já estão nos níveis mais
baixos dos últimos 40 anos. A perda de confiança dos investidores nas Bolsas,
uma tradicional fonte de financiamento das empresas nos EUA, dificilmente
será revertida a curto ou médio prazos”. E logo mais: “Mais que mergulhar e
arremeter, a maior economia do planeta pode levar um tombo do qual terá
dificuldades para reerguer-se”. É... os desejos com ares de profecias dos
idiomarxistas soam ridículos, não? Uma vantagem para os liberais é que eles
não entendem patavinas do mundo real; vivem apenas seus sonhos mórbidos
de desgraça alheia, sem olhar ou entender sua própria tragédia. Neste aspecto,
a mídia coopera com o governo de plantão, na sua função de despistar ou
divergir dos grandes problemas nacionais, tais como o desemprego, o
crescimento, a multiplicação exponencial de favelas e a guerra local,
exagerando na cobertura de algum problema externo. A guerra do Iraque, com
relação aos graves problemas nacionais de curto e médio prazo, não tinha
quase nenhuma importância. Outras manchetes divergentes foram: “Guerra
longa mudaria acordo com FMI”; “Brasília cria estrutura para monitorar guerra”;
“ANP e Petrobrás formam estoque estratégico”...

Dia 23: sangrando nossos combalidos bolsos, a turma do Lula publica, nos
principais jornais nacionais: “NOSSA  GUERRA É CONTRA A FOME”. Que
bonzinhos. Enquanto Bush matava velhos, aleijados e criancinhas, eles
combatiam a fome, distribuindo dinheiro de impostos, àqueles que não têm a
fome à qual eles se referem. A Folha preocupa-se com o enfraquecimento do
dólar, suponho que em relação ao euro e ao ien, não ao real, e publica fotos de
um soldado morto com uma bandeira branca na mão e uma criancinha
queimada, em primeira página. No dia seguinte, publica a opinião de um
médico brasileiro afirmando que as queimaduras eram antigas. Pelo menos, um
mínimo de dignidade. Mas omitem como eles, no dia anterior, haviam delirado
com a canalhice da turma do Saddam.

Dia 24: O Correio Popular de Campinas dá, em primeira página: “Iraque retarda
avanço dos EEUU e captura inimigos”. Inimigos nossos e de Saddam? E ainda:
"Fidel e Chávez condenam agressão contra povo”. A Folha, alertando sobre as
notícias fornecidas pelo comando americano, publica: “Desconfie das notícias”.

Dia 25: a notícia mais engraçada foi de um helicóptero “abatido”, ou
“derrubado”, por um fazendeiro em Karbala. Fotos de homens e crianças
comemorando. Um dos pilotos aparece aprisionado intacto, mostrado pela TV
iraquiana, e a aeronave perfeita sobre o solo. E a força da gravidade? A que
ponto chega a idiotia da mídia nacional, fazendo-se parelha aos funcionários
de Saddam! As outras manchetes foram: “Brasil tem condições de enfrentar
guerra longa”; "Saddam (líder iraquiano!) vai a TV para animar seu povo”; ”
Agora, mercado vê guerra difícil e desaba”. A guerra tinha a ver com tudo e
explicava sozinha tudo, até os puns dos meus boxers.

Dia 26: uma matéria do Estado, com o maior especialista brasileiro em
armamentos, Roberto Godoy, dizia: "Uma arma brasileira do lado do Iraque”.
Tratava-se de um lançador de foguetes, Astros II, de uma empresa brasileira
falida, na época do GPS. O orgulho nacional estava salvo. Estávamos presentes
na guerra e nada menos que do lado certo, do bravo líder Saddam. Se a guerra
se travasse com arcos e flechas, acho que algum nativo deveria opinar, mas
não era o caso. Uma nota da Veja dizia: "um político que esteve recentemente
com o superministro Zé Dirceu ouviu uma revelação curiosa: ele não queria que
a guerra tivesse estourado, mas, como ela veio, pode ser um bom pretexto
para que se editem mais algumas medidas provisórias". Pronto: a guerra
também tinha a ver com essa excrescência do subcapitalismo brasileiro, as
MPs.        

2ª semana da Guerra

Dia 27: O Estado, cheio de fé idiótica, não muçulmana, dá a manchete: “Iraque
avança sobre aliados com tropa pesada”. E ainda, "Poucos ainda se atêm à
perspectiva de uma rápida vitória sobre Saddam”. Outras manchetes foram:
“Massacre em Bagdá” e: “Guerra atrasará implantação da ALCA”. A guerra
também tinha a ver com a ALCA.

Dia 28: a Câmara Municipal do Rio de Janeiro votou e aprovou, por
unanimidade, um projeto que torna Mr. Bush persona non grata no Rio de
Janeiro. Os jornais brasileiros não deram a notícia. A notícia foi dada pela CNN
e por liberais gaúchos, do Ponto Crítico.

Dia 29: Alberto Dines diz: "A guerra foi concebida e deflagrada pela
prepotência estúpida, mas está sendo aproveitada pela estratégia da
irracionalidade”. O Estado: “A nova face do orgulho árabe”, a propósito do
fazendeiro que, com uma espingarda, derrubou um helicóptero e este,
desafiando a lei da gravidade, permaneceu inteirinho. Clóvis Rossi diz que a
bomba jogada pela turma do Saddam sobre um mercado, matando 15 pessoas,
era um ato do terrorismo americano. A Folha diz: “Erros e guerrilha barram
avanço a Bagdá; bombas atingem área civil”. A única coisa lúcida que havia era
um artigo do New York Times com o título: “A mídia árabe volta ao passado e
repete erros de 1967”. A mídia brasileira corria acoplada à árabe.

Dia 30: a grande notícia era “Carro-bomba mata 4 americanos". O curioso era
que o carro-bomba estava praticamente intacto. Ali havia, claramente, um novo
ápice dentro do surto. Através da mídia internacional e de uma leitura mais
atenta da notícia, pude entender o ocorrido: um oficial iraquiano, homem-
bomba, desceu do carro e pediu ajuda aos soldados americanos e, quando
aqueles se aproximaram, detonou a carga. Na TV, Saddam aparece com roupas
de inverno, naquele tremendo calor, e a mídia local se cala. Começa por aqui a
preocupação com a destruição dos tesouros históricos no Iraque. A Folha,
comentando a economia americana, diz: "Economia bombardeada”, e “US$ 1 tri
evapora das Bolsas antes da guerra”. Não explica onde foi parar essa
"ninharia". Quem sabe foi se proteger, transformando-se em reais. E ainda: ”
Fantasma da recessão volta a rondar os EEUU”. O Correio de Campinas diz:
“Guerra pode acentuar recessão no comércio”.    

Dia 31: a primeira página do Correio diz: “Exército de 4 mil suicidas reforça
tropas do Iraque”. "Exército de suicidas" soa gozado, não? A charge da Folha,
com caricaturas macabras, diz: “Nossa paciência acabou! Ou o exército de
Saddam se rende em 24 horas, ou daqui a uns 6 ou 7 meses, ocuparemos
Bagdá”. A mídia brasileira, assim como a árabe, vibrava com a certeza de uma
guerra prolongada, talvez até com uma vitória de Saddam. Na verdade,
faltavam míseros 9 dias para a queda.

Dia 1 da Abril: no pico da guerra, o "grande" presidente Lula, do "poderoso"
Brasil, envia carta ao Papa pedindo paz. O superministro Zé Dirceu prevê uma
guerra longa, e acha que o país precisa crescer apesar dela, e ainda afirma que
o cenário internacional será de “crise permanente” - aspas, com ironia, por
conta da Folha. "Crise permanente" é divertido, mesmo. A Folha ainda diz:
“EEUU matam crianças em barreira”; “Mártires convergem ao Iraque” e “Guerra
criará cem Bin Ladens, diz líder egípcio”. Nesse dia, o tráfico obriga a mídia a
sair de sua postura de divergência dos graves problemas nacionais e trazer a
guerra local para a primeira página. A manchete é: ”Nova onda de ataques no
Rio atinge hotel, queima veículos e mata PM”. Finalmente uma notícia da
guerra local, na maioria das vezes silenciosa, mas permanente e em constante
ascensão.

Dia 2: as notícias continuam no mesmo tom: americanos matando inocentes,
Saddam convocando a Jihad e a economia americana encolhendo. Sobre a
economia brasileira, a costumeira nonchalance. A jornalista (?) Mônica
Valdvogel, do programa “Saia Justa”, do canal pago GNT, diz, ao vivo,
literalmente: “A imprensa americana è um lixo”.

3ª semana da guerra

Dia 3: a Folha diz: ”Para analistas, Bagdá pode cair em até 8 semanas”;
estávamos há somente 6 dias da queda. O Estado diz: ”Surpresa em Najaf:
boas-vindas”. Surpresa para quem? Para os jornalistas brasileiros no comando
da idiotia nacional?

Dia 5: O Estado: “Homem na multidão: Saddam”. Sem aspas e sem nada,
dando por sentado. Toda a mídia internacional colocava aspas, se tanto. Na
verdade, a notícia era tomada como chacota. A Folha: “Para 91% nos EUA,
guerra ´vai bem´”. O "vai bem" vinha com aspas. Os idiomarxistas ainda
confiavam numa virada. Faltavam 4 dias para a queda. E ainda: ”Iraque
anuncia Operação Martírio”.

Dia 6, a Folha diz: “EUA dizem já agir dentro de Bagdá”. Observem o verbo:
"dizem". Esses americanos mentirosos! Aqui surge a figura do paranóico
ministro da Informação do Iraque, MSS, como ficou conhecido
internacionalmente, objeto de chacota internacional. Ele passa a ser a grande
fonte de informação da mídia brasileira. A Folha diz: ”Ministro da Informação
nega que tenha havido incursão”. Sem aspas. Faltavam 3 dias para a queda. O
Correio de Campinas ilustra um artigo com o título: ”Guerra e controle de
informação” com a figura desse débil mental. Versão moderna e grotesca de
Joseph Göebells. O Instituto DataFolha revela que 90% dos brasileiros são
contra a guerra. Por que será, hein? Mistério... A Folha dá, em primeira página,
a foto de um possível homem-bomba, dizendo: ”Minha missão é matar os
invasores”. El Comandante Cardoso publica seu primeiro artigo n´O Estado com
o título: ”Depois da guerra”. Não "Depois de Saddam", obviamente. Logo no
começo, ele se ombreia com Bush, o “companheiro" do Lula, contando: ”
Recordo-me de duas conversas com o presidente Bush nas quais ele procurava
evitar o que Samuel Huntington (não que o presidente o citasse, é claro)
chama de choque de civilizações”. Qual era o subtexto? Bush, um mero cowboy
texano, ex-alcoólatra,  não poderia citar esse tal de Samuel pois sequer
conhecia sua obra. Ele, em compensação, sim, afinal, possuía 20 títulos de
Doctor Honoris Causa (desafio alguém a provar-me que não se trata de um
recorde mundial)! E logo ele diz: “E foi o que aconteceu no Afeganistão, sem
sequer o consolo do aprisionamento de Bin Laden”. O mesmo que diz nossa
faxineira! Que brilho intelectual! E mais: ”Depois da guerra, ao que tudo indica
a ser ganha pelo mais forte, sobrarão muitos problemas para o mundo e o
travo amargo do anti-americanismo”.  E mais: “Será que o controle das fontes
de suprimento energético compensa tudo isso?” Meus amigos de caminhada,
que são caixas de ressonância de Fátima Bernades, dizem o mesmo, mas em
vez de tantas palavras complicadas, eles usam apenas uma: petróleo. E mais: ”
Retrocede-se, assim, a lei do mais forte a um estado de natureza, pré-
hobbesiano.” No final, ele desafia os EUA com a China, daqui a 40 anos. Faz
sentido, pois lá, não existe sequer a Justiça de Trabalho getulista. O “detalhe”
é que a China será um grande aliado na eliminação da pobreza e da miséria no
mundo, pois lá o capitalismo está correndo solto, na base, apesar do partido
comunista. Aqui, o comunismo faz estragos econômicos bem mais graves!

Dia 7: a Folha diz: “Americanos fecham cerco a Bagdá”. Não usam mais o verbo
"dizem" nem aspas. A ficha começava a cair, há 2 míseros dias antes da queda.

Dia 8: a Folha publica uma foto, na primeira página, com o título: ”EUA ocupam
palácios de Saddam”. Arnaldo Jabor, uma das pérolas da idiotia nacional,
escreve um artigo no jornal dos Mesquita com o título: ”Abaixo a inteligência,
viva a morte”. Ressalto poucos highlights. “Bush é o porta-voz de uma gangue
da América silenciosa que odeia a democracia e que tomou o poder numa
eleição com ares de golpe”; “Eles odeiam a Europa (principalmente a França)
por ser mais culta, mais sábia, mais chique”: e arremata, “É a coisa mais grave
que nos aconteceu, desde Hitler”. Aquele chique, no contexto, me fez rir.

Dia 9: para a mídia brasileira, os americanos continuam matando civis. A
notícia interessante do dia foi ver como a idiotia, no seu ápice, aflora novos
dados. Dois articulistas normalmente sóbrios e, em algumas oportunidades,
interessantes, José Nêumanne e Yves Gandra Martins, escreveram, “A batalha
de Bagdá” e “O terrorismo oficial de Bush”. Quando a febre é muita alta, ela é
reveladora. Na verdade, essa data se tornaria histórica, pois era a queda de
Bagdá, que a mídia escrita, obviamente, só noticiaria no dia 10, quando então
a febre começou a baixar.

Dia 10: O Estado diz: “Bagdá conquistada”.  Não "tomada", "ocupada" ou
"liberada" - isso já seria pedir demais, hein? O fato era a conquista de Bagdá
pelos americanos. Que troféu! Numas letrinhas miúdas: ”O povo festeja e
ajuda a derrubar a estátua de Saddam”. Tratava-se, na verdade, de um dia
histórico para a humanidade. Era a queda do 2º Muro de Berlim, como escrevi
no dia. Toda a mídia internacional civilizada deu enorme destaque a este dia. A
guerra havia acabado.   


O imediato pós-guerra

Dia 11: a febre começa a baixar, mas lentamente. A Folha dá pequenas
manchetes como: “Assustados, os marines atiram até em crianças”; “Declínio
dos EUA ainda é inevitável, diz Paul Kennedy”. Um dos gordos espécimes da
idiotia nacional, Carlos Heitor Cony, escreve: “Mata! Esfola!...”, no qual cita
uma passagem bíblica: "O número de imbecis é infinito (stultorum numerus
infinitus est)". E ainda: "O massacre promovido pelo Departamento de Estado
(...) e, pessoalmente, pelo presidente George W. Bush ficará como um dos
crimes mais hediondos desse início de século, fazendo contraponto ao
atentado de 11 de setembro de 2001, que foi a ação pessoal e até agora
isolada de um grupo de terroristas”. Outro espécime menos conhecido, Barbara
Gancia, escreve: “Não se deve subestimar um alcoólatra recuperado”. O artigo
começa: “Vem cá: a guerra de Bush não ia virar um Vietnã? E a invasão do
Iraque não ia estraçalhar a economia mundial?” Aqui, um exemplo claríssimo
de que a mídia se auto-idiotiza, além de idiotizar a sociedade. E logo: “Não se
deve subestimar um alcoólatra recuperado. E muito menos alguém que
conseguiu dominar a doença e se tornar presidente dos EUA”. Ela não sabe
absolutamente nada da história dos EUA e do mundo. Isso lembra um
pensamento de Göthe:

Quem, de três milênios,

Não é capaz de se dar conta,

Vive na ignorância, na sombra,

À mercê dos dias, do tempo.

Dia 12: a grande notícia do dia, veiculada por toda a mídia internacional,
recebe aqui pequenas notas, verdadeiro "pé-de-página": “Cuba executa 3
julgados na terça”. Observem  a safadeza: foi Cuba, e não o assassino do
Caribe, amigo de Chico Buarque, Zé Dirceu, Lula, dentre tantos. Observem a
segunda safadeza, “julgados”. Realmente, aqueles pobres infelizes que
buscavam apenas a liberdade, mereciam ser fuzilados por Fidel e sua corja. A
grande notícia está n´O Estado: “Casa Branca: o regime acabou,...” e em letras
pouco menores: ("mas o caos continua”), entre parênteses. A ofensiva não
havia sequer sido declarada oficialmente finda e eles queriam um Iraque como
o Principado de Mônaco. No tocante aos aspectos econômicos, a Folha colocava
em primeira página: “Economia dos EUA freia dólar, que cai a R$ 3, 20”. E logo
a explicação: “A divulgação de que a economia dos EUA pode estar melhor que
o esperado freou o dólar ontem, após dois dias de valorização”. Que
pandemônio! Formei-me em economia em Estocolmo, nunca exerci a profissão,
mas como entender esse negócio?

Dia 13: O Estado dá a notícia mais ridícula do dia: “Cuba resistiria aos EUA por
cem anos, diz Fidel”. Sem aspas. Onde fica Guantánamo? A demência do último
dos ditadores, com nostalgia de Joana D’Arc, é reproduzida aqui com letras
garrafais. Que potência econômica e militar é Cuba? Mas e a avançada
medicina? diriam os idiomarxistas locais. E eu retrucaria: E El Jangadero e as
prostitutas, fontes de preciosos dólares, além dos cubanos livres que enviam
dólares a seus pobres familiares? A Folha dá uma chamada, na primeira
página, para um artigo, A náusea e as bombas que sabem demais, do mais
famoso comunista da América Latina, Eduardo Galeano. O caderno de cultura,
Mas, da Folha, publica o artigo semanal: “O que é e o que não é”,  de Jorge
Coli, Professor de História da Arte da Unicamp, Ex-Secretário de Cultura do PT
em Campinas. O artigo é ilustrado por uma caricatura da bandeira americana,
obra de George Maciunas, líder do movimento Fluxus, onde as estrelinhas são
transformadas em caveirinhas e as faixas vermelhas com dizeres que começam
assim: USA surprises all the genocide records, e por aí vai. Que horror essa
cultura. Parecia mais bem “arte”, no sentido que se dava à palavra na minha
infância.

Dia 15: a Folha dá: ”EUA ameaçam Síria com sanções”. E O Estado retruca,
através de nosso especialista tupiniquim em armamentos: ”Poderio militar e
defesa aérea são o forte dos sírios”. Não há possibilidade de aprendizagem.
Fenômeno conhecido, desde os gregos, por dislexia.

A febre começava a baixar, ma non troppo, pois o fenômeno, em si, é
permanente, intenso e aparentemente eterno. Mas os surtos sempre nos
conduzem à compreensão de novos aspectos.