| O TANGO (1996) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email: josinomoraes@hotmail.com Não deixa de ser curioso que alguns brasileiros, no final deste século, teçam reflexões sobre essa forma particular de música, canto e dança. A publicação do livro de José Lino Grunewald, "Gardel, Lunfardo e Tango" é o início de um esforço analítico para a compreensão do tango no Brasil. Recentemente, em São Paulo, foi criada a Academia Brasileira de Tango que já nasceu com 200 filiados. A bem da verdade, este parece ser um fenômeno internacional. Leio na imprensa que um dos mais notáveis instrumentistas dos últimos tempos, o violinista Gidon Kremer, russo (da Letônia), está divulgando seu disco "Hommage à Piazzolla", na Austria, Alemanha, França e Itália, e posteriormente o fará no Japão e Estados Unidos. O entusiasmo da platéia em Roma foi tanto que o bis foi pedido seis vezes. Para os interessados no tema sugiro a leitura deste esplêndido trabalho Tango! publicado em Londres por Thames and Hudson de autoria de Simon Collier et al.. Ademais, há vasta literatura em espanhol, sobretudo na Argentina. No entanto, pessoalmente, dou-me ao luxo (ou prazer?) deste pequeno ensaio de interpretação histórica, pois durante cinco longos invernos suecos estive sitiado de livros sobre a história econômica latino-americana no Latinoamerika Institutet em Odenplan, bairro central daquela belíssima Estocolmo. O trabalho duro era a obrigação de produzir no mínimo um paper anualmente, felizmente intercalado, às vezes, com um papinho com o Gabeira, antes que ele escolhesse como prioridade nacional a importação de certa amenidade - maconha, como se tratasse de um bem escasso na produção nacional! A história econômica, política e social da Argentina é provavelmente uma das mais intrigantes deste século. Aproximadamente de 1880 a 1940 a Argentina foi o país que mais cresceu no mundo. Buenos Aires teve sua primeira linha de metrô inaugurada em 1913. Seu vizinho, o Uruguai, era considerado a "Suiça da América". Pouco antes da Segunda Guerra era, sem dúvida, um dos países mais ricos. Em muitos países do primeiro mundo, acreditava-se que Buenos Aires era a capital de vários países latino-americanos, inclusive do Brasil. O sentimento de grandeza dos argentinos era tamanho que o incidente do Graf Spee deu origem à seguinte piada. Pergunta o uruguaio: - Que pasaria se la armada (marinha) inglesa quisiera ingresar en el estuario de la Plata contra la oposición de la armada argentina? Responde o argentino: - La hundiríamos (afundariamos) por completo. - Y se fueram todas as armadas del mundo? - No tendrían mejor suete. - respondeu o argentino. - Y si fuera Diós? - desafia o uruguaio. - Si fuera Diós, sí, pasaria, pero mal herido (muito ferido)!. Logo depois vieram Perón, os sindicatos e Evita, esta última capaz de pérolas como esta: "He viajado por Europa, alli todas son antiguedades. El futuro está en la Argentina de Perón. Mañana San Perón, que labore el patrón"(1947). Eram os anos em que a multidão gritava o famoso refrão: "Perón, Perón, que grande sos vós, Perón" . Desde então, por 50 anos, a Argentina caminha a passos graduais, porém inexoráveis, para o Terceiro Mundo. Restou-lhe do passado de riqueza o capital humano, porém mesmo este deteriorado, com níveis indesejáveis de inveja e ressentimento, contaminado de idéias corporativistas e quimeras afins, que dificultam enormemente o futuro. Curiosamente, no plano das teorias econômicas ainda saem da Argentina estripulias como planos heterodoxos (Austral), mágicas, congelamentos, tablitas, coisas de Frenkel. E, o que é pior, são copiadas e aperfeiçoadas aqui como é o caso da âncora cambial (eufemismo para congelamento?) para resolver o problema inflacionário. O dia em que nossos pares de Estocolmo descobrirem os pais da teoria da inflação inercial provavelmente teremos o primeiro Nobel para a Nação. Tratam-se de exuberâncias irracionais na deliciosa expressão cunhada por Greenspan? Afinal Serra, entre outros, foi colega de Frenkel nos bancos da Escolatina na época do Vuskovit, lembram-se? Hoje, como diz o brilhante economista Rudiger Dornsbusch do M.I.T., pode-se considerar a Argentina um país quebrado. Trata-se de um caso único na história econômica contemporânea. Por que creio ser o tango um momento único desse século? Porque foi o momento em que o homem latino (não era apenas esse o caráter presente, porém sem dúvida o dominante), experimentou a sensação de riqueza, esplendor e glória. E o processo foi extremamente rápido e alucinante, com seus naturais subprodutos, como certos níveis de delinqüência e prostituição. O tango tornou-se assim a música predominante na primeira metade desse século no mundo civilizado. Foi a "globalização"(!) do tango. Quais os principais elementos que compõem esse quadro de rápido desenvolvimento econômico, cultural, etc, que explicam o fenômeno do tango? Em primeiro lugar, a fortíssima migração europeia: italianos, espanhóis e alemães, em busca do pão. Eram migrantes econômicos. Traziam, no entanto, a cultura do formão, do artesanato, do trabalho criativo e também da ópera e dos violinos! A terra era plana e excepcionalmente fértil e, somada a um clima frio, produzia trigo tão bom como o europeu. A produção de gado então, nem falar, eram os pampas argentinos. No entanto, migrar tem um forte componente emocional. Significa abandonar sua terra natal, sua língua, seus costumes, enfim um processo extremamente doloroso. Curiosamente, o negro sofria também, compulsoriamente, o mesmo processo. Atinamos com este fato pois durante o nosso período de idiotia juvenil, fomos obrigados ao exílio e conseguimos avaliar nas vísceras a intensidade desses sentimentos. Além desses aspectos emocionais, o cenário intelectual era o que de melhor se poderia esperar para a nossa América Latina de então. De fato, floresciam ali, na Bacia do Prata, os primeiros e principais ensaístas: Sarmiento, Alberdi, Rodó, Manuel Ugarte, Ingeñieros, enfim, a intelligentsia latino-americano. O caldo emocional e cultural era tão denso que quase cria uma nova linguagem: o lunfardo. Os diferentes dialetos italianos dão origem a novas palavras e expressam novas situações que a vida criava. Ele influencia todos os países do continente, inclusive o Brasil. Bacana, bronca, afanar, enfim, uma infinidade de outras palavras da gíria brasileira têm ali sua origem. Assim surgiu o tango. Os instrumentos eram os mais sofisticados que o gênero humano havia criado até então: harpa, guitarra, flauta, violino, piano, contrabaixo, cello, viola, etc.. Além de todos estes, ele cria sua alma-máter, o bandonéon. Que preciosidade! Estamos em 1910, e os mais importantes músicos argentinos vão à Paris para gravações. O tango foi provavelmente a primeira música a ser gravada. De qualquer forma o foi 10 anos antes do jazz. Ele ganha os salões de Paris e Londres. São seus anos de ouro. Um ditado da época dizia assim: "os portenhos são italianos que falam espanhol, pensam que são britânicos e desejariam de fato ser franceses". Se aqui na América ele nasceu nos bordeis, com seus maravilhosos compadritos e guitarras, ele migra para o Primeiro Mundo no estilo mais sofisticado possível: os tea-tangos. Uma revanche dos velhos migrantes? Ele tornou-se o supremo senhor dos salões mais elegantes do mundo. Em torno de 1915, surge a figura importantíssima de Pascual Contursi criando o tango lírico. Alguns o definem, parece-nos de uma forma um tanto imprecisa de tango canção. Em seqüência, surge a figura incomparável de Carlos Gardel. Excelente barítono e sem dúvida o mais importante cantor latino desse século. O centro do mundo civilizado começa a deslocar-se para Nova York e Gardel grava alí os primeiros filmes musicais como: "Cuesta abajo" e "El dia que me quieras". Um aspecto curioso a notar-se, é que aqui no Terceiro Mundo exceção feita obviamente à Argentina e Uruguai, o tango-lírico passa a ser visto como o estereótipo da tragédia. O poeta brasileiro, Manoel Bandeira em um de seus poemas sobre os estertores de um homem finaliza dramaticamente mais ou menos assim: "Só lhe resta ouvir um tango argentino". Provavelmente a ópera lírica é desconhecida nessas paragens e a tragédia humana só é associada ao tango. Do ponto de vista psicanalítico, sem dúvida, o édipo constitui um elemento central nas letras de tangos. Mas que fazer? E aquela famosa canção italiana "Mamma, mamma...". No pós-guerra o tango desenvolve-se basicamente apenas como música instrumental, com extrema sofisticação na figura inigualável de Astor Piazzolla. É sua derradeira sobrevida. Depois restou-nos Madona-Evita, treinador cubano e Menen. Este, afirma-se um expert em matéria de reeleição. Num recentíssimo comentário na imprensa brasileira sobre o citado trabalho de Kremer parece estar embutida a idéia de que existiriam dois Piazzolla, um erudito e outro não. É difícil, para nossa alma tropical, aceitar que simplesmente o tango ("uma forma musical pequena"!) possa ter tamanha dimensão no cenário mundial. As origens musicais do tango são extremamente complexas. No entanto, cabe ressaltar que na última etapa de sua linhagem, ele é o fruto da milonga com certa influência de candomblé. Aí aparece nitidamente a influência do negro no desenvolvimento do tango: a dança. Por quê? Por ironia da história os compadritos se deliciavam observando aquela curiosa dança dos negros que abundavam no porto de Buenos Aires. E, nas suas brincadeiras, parodiando aquelas formas primitivas acabaram incorporando vários elementos da dança original. Posteriormente, há o registro de importantes músicos negros na história do tango. Ou seja, ali onde o negro encontrou uma cultura musical elevada, como foi o caso também dos Estados Unidos, ele contribui, com sua angústia de migrante, de uma forma vigorosa para o seu desenvolvimento. O tango é coisa do passado. E por acaso não o são a ópera, Vivaldi, Bach, Beethoven, e até o maior de todos, Richard Wagner! Quantas coisas maravilhosas deixou-nos o passado. Em certo sentido a vida é cruel. Como bem precisou Gardel, não se consegue eternizar absolutamente nada. No seu afã criativo a vida torna-se destrutiva. O raciocínio aqui, lembra-me o de Schumpeter na economia. Hoje, o soberano é o rock nas suas múltiplas manifestações. Enquanto isso, no limiar desse século (siglo veinte cambalache!) o Chiquinho Weffort, ministro da cultura, amigo de infância, é..., lá de Assis e também de Santiago do Chile, luta por um projeto de reserva de mercado para a música nacional. Que idéia mais esdrúxula. Que é música nacional? Qual o seu conceito? Os queridos Mamonas Assassinas cantavam em português, mas a música era nacional? No meu entender, o idiota perfeito é o bolchevique, e o imperfeito seria o social-democrata tupiniquim? Absolutamente, a grande tragédia é a cultura nacional. |