| A Tricontinental de Lula (2004) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email: josinomoraes@hotmail.com Noticias recentes informam que Lula articula uma nova reunião dos países da America Latina, África e países árabes no Brasil. O verdadeiro arquiteto da idéia deve ser Marco Aurélio Garcia, um velho conhecido. O objetivo seria alinhar os interesses desses pobres países (sic) para opor-se aos ricos: Estados Unidos, Japão e União Européia. Lembrei-me, imediatamente, de um passado distante: "A Tricontinental dos Povos da África, Ásia e América Latina", realizada em Havana, em 1966. Fui membro, apesar das dúvidas lançadas por Flávio Tavares, belo espécime da nomenklatura política e jurídica brasileira, da bancada brasileira, representando o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), designado por Leonel Brizola. Na verdade, era membro da Vanguarda Popular Revlucionária (VPR), cuja figura central era Onofre Pinto, Sargento do Exército, que posteriormente recrutou o Capitão Carlos Lamarca. Outro membro da bancada era o então Deputado Federal Max da Costa Santos. Vivia-se o auge da Guerra Fria e Fidel, a mando de Moscou, jogava seu papel, tentando construir uma linha auxiliar de apoio ao comunismo internacional. O evento deu-se no magnífico Hotel Habana Libre. Pela primeira e única vez em minha vida, freqüentei um hotel cinco estrelas! Certa feita, conversando com Max em meu quarto, recebemos a "ilustre" visita de Salvador Allende, ainda na antevéspera de abocanhar o poder no Chile. Mário Vargas Llosa, com sua mulher, grávida, provavelmente de seu filho Álvaro, jovem co-autor do saboroso ensaio "O perfeito idiota latino-americano", era um dos convidados. Posteriormente, como no meu caso, tornou-se um liberal, apesar de algumas vacilações atuais, como no caso recente da Guerra do Iraque. Um dos personagens do ensaio citado acima é El Comandante Cardoso (FHC) e "sua" Teoria da Dependência. "El Che" não se encontrava. Havia no ar um quê de mistério sobre seu paradeiro – preparava-se, a bem da verdade, para sua aventura boliviana. Era a filosofia de: "Um , dois , três Vietnãs". O clima era de euforia e vitória. Belas mulheres freqüentavam o hotel. Apaixonei-me por uma bela bailarina uruguaia, do famoso corpo de ballet de Alicia Alonso, uma das meninas-dos-olhos de Fidel. Relembrando o passado, há algum tempo, cheguei à conclusão de que minha bailarina era membro da P2, a polícia política cubana! A força da libido, na juventude, impede qualquer raciocínio. Comia- se muito bem, ao som e à dança de lindas mulatas da orquestra cubana. Cabarets. Numa recepção oficial, recordo-me com tristeza de que dei a mão a "El Cavallo", Fidel, amigo íntimo de Zé Dirceu. No final do evento, fui informado de que iria com um grupo seleto a um campo militar no interior. O avião militar russo carecia de pressurização e meus ouvidos doíam muito. Na aterrissagem, com céu esplendoroso, o piloto fez alguma barbeiragem e a abortou. O membro mais famoso de nosso grupo era Turcios Lima, guerrilheiro guatemalteco, outra menina-dos-olhos de Fidel. Felizmente, morreu pouco tempo depois. No campo de treinamento de tiro ao alvo, conheci a então famosa metralhadora quatro-bocas, invenção chinesa, na época para bateria anti-aérea. Seu som era enlouquecedor, mesmo com proteção auricular. Revelei-me um excelente atirador e, sobretudo, magnífico na bazuca, devido aos meus conhecimentos de engenharia, suponho. Lembro-me bem que, do topo de uma montanha, observando uma demonstração de exercícios do Exército Cubano, ao lado de Raúl Castro e outros, ele exclamou: "Ah... o Brasil"! Na volta a Havana, meu endereço já estava definido: um "aparelho" em que já se encontravam vários brasileiros. A maioria era de ex-marinheiros e ex-fuzileiros navais. Tratava-se da parte urbana do treinamento: manuseio e fabricação de bombas, além da familiarização com o fuzil. Achei ótimo, pois, afinal, retornava aos braços de minha bailarina. Depois que o responsável civil, policial especializado na área, se retirava, ao entardecer, eu "escapava", via guagua (ônibus), para o ninho de minha amada. Retornava às cinco da madrugada para o treinamento. Logo mais, veio a parte mais dura do treinamento: a guerrilha, propriamente dita. Região montanhosa. Éramos 11, se não me falha a memória. Mera coincidência com o Grupo dos 11 de Brizola, creio. O acampamento ficava à beira de um riacho. Nas noites de guarda, dormia-se muito pouco e isso exasperava os nervos. Lembro-me do ímpeto de matar um dos parceiros, por alguma questão menor. Recebo notícia ruim de Montevidéu: "La Flaca" estava grávida e necessitava de dinheiro para o aborto. Por sorte, tinha alguns dólares enviados pela família. Tínhamos um "aparelho" em Pocitos, bairro nobre de Montevidéu, à beira da praia. Lá, aconteceu nosso namoro. A casa comportava, aproximadamente, cinco "quadros". Um equatoriano, de nome Jaime, que já havia sido preso no Brasil, dizia: "É isso aí, meu bonito", com um simpático sotaque hispânico para a frase. Me ensinou alguns rudimentos da cozinha, tais como: "Fuego lento, paulista, como en el Infierno!" A propósito de sotaques, Brizola me contou que, na Guerra do Paraguai, na região da fronteira, os brasileiros, para distinguir os nacionais dos paraguaios, exigiam que os suspeitos dissessem "quero-quero". Há determinados sons de uma língua extremamente difíceis para os estrangeiros. A casa de Pocitos era a ante-sala para a viagem a Cuba. Aguardávamos ansiosos o Dia D. Brizola, Paulo Schilenger, Dagoberto Garcia e Neiva Moreira formavam o Alto-Comando. Na minha primeira reunião com Brizola, no elegante balneário de Atlântida, ao me identificar com o codinome da época, ele imediatamente me retrucou: "Fala, paulista". Adversários históricos que éramos, ele não titubeou ao me identificar. Contou-me uma estória jocosa de Flores da Cunha a respeito da masturbação num cabo de vassoura. Eu representava a "derrota", "A Revolucão de 1932", da qual Mário Covas fez um novo feriado, como se já não bastassem os já existentes, enquanto ele, lídimo representante de Vargas, representava a "vitória". Essa vitória do "trabalhismo" tão bem materializada na figura terminal de Lula. Minha ida ao balneário foi um pouco conturbada, devido à polícia uruguaia, que me tirou as impressões datiloscópicas... dos dez dedos! Os Tupamaros estavam no seu nascedouro e seu lema era: "O hay patria para todos o no hay patria para nadie!". Junto aos Montañeros, argentinos, foram os mais brilhantes guerrilheiros urbanos na América Latina. A viagem a Cuba era longuíssima. Devidamente munidos com passaportes falsos, no meu caso, fui até Paris, Praga (Tchecoslováquia), retornando até Vancouver (Canadá), e logo Cuba. Outros iam até Leningrado (antiga Petrogrado) ou Moscou. O caminho de volta para Cuba era num velho, porém seguro, turbo-hélice de bandeira cubana. O treinamento nas montanhas de Camagüey era relativamente duro. O carregamento dos alimentos do grupo – peso em excesso, sobretudo do saco de açúcar, além da mochila, do velho e pesadíssimo fuzil Garrand etc. – era revezado entre o grupo. "Macarrão", magro e de pernas finas, como o apelido insinua, não agüentava seu turno. Às vezes, nas subidas, sentava-se na lateral e choramingava. Eu, com uma excelente condição física, ex-campeão universitário de judô, socorria-o. O comandante da coluna era um Tenente, baixinho, taciturno, que aparentava ser um verdadeiro guajiro (caipira cubano). Eu e o Capitani, com o fuzil FAL, belga, creio, éramos os melhores atiradores do grupo. Dia desses, vi que ele protestava por sua aposentadoria via Lei da Anistia. Obviamente, logrou- a, assim como Lula, El Comandante Cardoso e tantos outros canalhas. Pobres burros-de- carga (pagadores de impostos), com tantas sobrecargas! Marx criou a máxima: "Quando a história se repete, ela sempre o faz em forma de farsa". Isso parece ter algo de verdade em relação ao nosso tema. Essa idéia me ocorre a propósito da Tricontinental de Lula. O mundo mudou, os ventos do oeste são mais fortes que os do leste, parafraseando Mao Tse Tung. O Muro de Berlim caiu, o capitalismo corre solto na China e parece até que dá seus primeiros sinais de vida na Rússia. O comunismo, cérebro de tricontinentais, está morto. Restam apenas algumas curiosidades (ou excrescências) históricas: Cuba, Coréia do Norte, FARC, ELN, MST´s etc. A linha auxiliar também é frágil: Lula, Chávez, alguns países árabes e africanos. Até Kadafi, da Líbia, desertou. A imensa maioria dos países quer ganhar dinheiro, investindo na produção e gerando oportunidades de trabalho para seus povos. A África, a América Latina (exceto o Chile) e os países árabes em geral são o lixo da história contemporânea. O mais provável é que a Tricontinental de Lula sequer saia do papel, ou, pior ainda, sequer saia dessas pobres mentes doentias para o papel em si! |