Viagem de um Liberal aos EEUU (2003)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com


Advertência: não acentuarei palavras neste texto (a turma do Otavico Frias aboliu
apenas o trema; aqui, seremos mais conseqüentes), pois, como me precisou um de
meus mais novos amigos, Keith Rosenn, Professor de Direito, americano, expert em
Jurisprudência Histórica Brasileira, isso demandaria quase o dobro do tempo para este
meu breve relato.

De fato, acabei acentuando, devido a conselhos de amigos e editores.

O professor Keith escreveu dois artigos com o fascinante titulo:
The Jeito: Brazil’s
Institutional Bypass
. Esses trabalhos foram aqui publicados pela Editora Renovar sob a
forma de um livro com o título: O Jeito na Cultura Jurídica Brasileira. Ele se orgulha,
com absoluta razão, de ter montado uma fabulosa biblioteca jurídica brasileira e, em
menor medida, de outros países da América Latina, na Universidade de Miami. Sua
grande reclamação foi de que as obras mais antigas não dispõem de índices(!). Maílson
da Nóbrega nos informou que: "Pelo Código de Contabilidade de 1922, as emissões de
moeda eram receita pública, uma aberração que durou 40 anos (O Estado, 12/1/03)". O
paradoxal é que, pelo que me consta, um tal Sr. Martins escreveu A História da
Inteligência (sic) Brasileira, obra que teria demandado nada menos que seis volumes.
Quanto à questão da acentuação, devo acrescentar que com o advento da Internet, ela
se tornou ainda mais nociva: além de demandar tempo, muitas vezes, as mensagens
tornam-se ininteligíveis devido à existência desses risquinhos.

O objetivo deste curto relatório é transmitir aos amigos liberais brasileiros a experiência
de minha viagem com o objetivo de abrir contatos com liberais americanos.

Washington, D.C. - O hotel, com fácil acesso ao metrô, funcionou muito bem. O metrô
e, eventualmente, os ônibus conectados a ele, funcionam muito bem. O conhecimento
prévio da cidade, via mapa, ajudaria muito. A Internet ajuda, mas não o desejável.
Nada como um grande mapa geral. O principio geral é de que as avenidas correm na
direção norte-sul e as ruas (streets) correm na direção leste-oeste, ou vice-versa. Miami
é o oposto de Washington. Além disso, é preciso estar atento aos 4 quadrantes:
nordeste (NE), noroeste (NW), sudoeste (SW), sudeste (SE) e qual o ponto central que
os define. Um erro elementar entre SE e SW me custou caro. Cidades menores parecem
não obedecer à regra. Um mapa do metrô também é fundamental. O importante seria
não perder tanto tempo com a familiarização da cidade em questão. No meu caso, isso
demorou de 2 a 3 dias. Eventuais amigos são extremamente úteis para as dicas iniciais.
Nas cidades americanas, praticamente não há bares, o que significa, in pejus, a
inexistência de toaletes. Há que procurar sempre as raras cafeterias. Se os proprietários
forem de origem oriental, há que preparar-se para caras feias. Parece que se parte da
idéia de que certas coisas (feias?) só deveriam ser feitas em casa. Para os que tem o
hábito de beber muito liquido e passaram dos 60, trata-se de algo nada agradável, e
isso com uma próstata em ordem.

Washington é uma cidade linda e muito bem projetada, que foi delineada pelo arquiteto
francês L’Enfant, a mando de George Washington.

A primeira diferença cultural notável que observei foi o fato de que, no metrô, 70% das
pessoas lêem, muitas até de pé. Mais do que a leitura em si, o que me chamou a
atenção foi a idéia de aproveitar o tempo.

Minha primeira visita foi à Atlas Foundaton, em Fairfax, um elegante subúrbio da
cidade. Encontrá-la não foi fácil, pois não é conhecida e o edifício em que se encontra
não indica nada. Fui parar na George Mason University. O importante seria dizer que
está em frente a uma estação de bombeiros; acho que ao número 2. Lá, encontrei-me
com Alejandro Chafuen e Rómulo Cordero. Informaram que estavam patrocinando uma
reunião no dia 20 de novembro, durante a reunião da ALCA em Miami, no Hotel Marriot.

A todos os meus interlocutores, dei uma cópia de meu livro, A Indústria da Justiça do
Trabalho, e de meu documento em inglês,
Research Project: The Causes of Latin
America Economic and Social Tragedy, and Possible Solutions
.        


Logo, estive no Cato Institute com Ian Vásquez, que se dedica à América Latina. O
Cato me pareceu forte, mas mais voltado para os problemas americanos e, talvez, da
Ásia, onde as coisas vão muito bem.


Em algumas oportunidades, "forcei a barra prá valer" para fazer o contato. O caso
extremo foi com o Sr. Miguel Díaz, Diretor do South America Project do Center for
Strategic and International Studies (CSIS). Nosso bom amigo Louis V. Riggio me deu a
dica da existência da coisa e lá fui eu, sem telefonema prévio nem nada. Afinal, como
filosofou Riggio, houve uma época em que não existiam telefones e, mesmo assim, as
pessoas se encontravam. Passei pela recepção, coisa não tão simples em Washington
depois do 11 de setembro, e pela secretária, que me informou que ele se encontrava no
piso superior. Quando o encontrei, ele, estupefato, me perguntou, em inglês, algo
assim: “Nós tínhamos uma reunião agendada nesta manha?” Sorry, sorry! - disse-lhe
eu, mas lhe entreguei o documento em inglês sobre a América Latina. Ao oferecer-lhe
meu livro, ele o recusou, alegando não ler em português, algo absolutamente sem
sentido para um latino-americano de nascimento. De qualquer forma, algo consegui, às
duras penas. Ao sentir-me humilhado, consolei-me: na luta pélas idéias, homens
milhares de vezes mais importantes do que você, foram muito mais humilhados.
Remember Galileu, dentre tantos outros.

Na mesma base, tentei o Dr. James Ferrer, na George Washington University, mas sem
sucesso. Cheguei até ao seu escritório, deixei um cartão, voltei a ligar, mas sem
sucesso.

Também sem me fazer anunciar, fui até a Heritage Foundation. Ali, tendo que esperar
não muito, foi possível encaixar-me numa entrevista com o Sr.  Stephen C. Johnson,
Senior Policy Analyst para a América Latina. Fui muito bem recebido; expliquei minhas
idéias etc. Recebi seu 2003 Index of Economic Freedom, que inclui uma versão em
espanhol, e mais algum material sobre suas atividades.

Através de nosso querido embaixador Meira Penna, entrei em contato com William
Perry, americano descendente de portugueses, na elegante Connecticut Ave. Desde seu
escritório, pode-se avistar a Casa Branca. Trata-se de uma pessoa muito bem informada
sobre as mazelas brasileiras. Conversamos muito e muitas idéias vieram à tona a
propósito de nossa batalha política.

Através de Ian Vasquez, cheguei ao Center for International Private Enterprise (CIPE).
Lá, estive com o Sr. John A. Zemko. Trocamos idéias e eu soube que eles haviam
colaborado com nosso Instituto Liberal do Rio de Janeiro no trabalho de Roberto Fendt e
Amaury Temporal: Custos de Transação no Mercado de Trabalho Brasileiro. Não tinham
nenhum projeto em relação ao Brasil, mas me pareceram gente muito forte. Recebi um
farto material sobre seu trabalho.

Através de nosso bom Riggio, entrei em contato com nosso conterrâneo Luís
Bittencourt, no Woodrow Wilson International Center for Scholars, onde dirige o Brazil
Program. Trata-se de um centro de pesquisadores de todo o mundo.

No meu último dia de Washington, fui convidado para almoçar com Nikolai Wenzel, ex-
Atlas Foundation, do Institute for Human Studies, uma pessoa extremamente delicada e
preparada.

Ainda nessa mesma tarde, estive com Damian Merlo, do International Republican
Institute (IRI). Ele é fluente em português, o que permitiu uma conversa mais rica, pois
descobri, em minha viagem, que meu inglês ainda é insuficiente. José Stelle já me
alertava sobre o
command of English. Pude notar um nítido interesse pelos problemas
brasileiros e a abertura para uma cooperação na procura de soluções para a tragédia
nacional. Recebi um farto material sobre o trabalho do IRI.

À noite, havia um  recado no notel do Dr. Constantine Menges, do Hudson Institute. Já
não havia mais possibilidade de encontro. Um celular fez falta. Alguém me comentou
posteriormente que existia a possibilidade de alugar-se um para situações como a
minha. Não dispor de um laptop foi outra falha. Nos hotéis, não há Internet.

Nos finais de semana, visitei monumentos e museus. No Arlington Cemetery, respira-
se, com respeito e dor, aquele ar profundo de um povo que soube construir uma Nação.
Do Museu da História Americana, como brasileiro, saí com uma vontade de rastejar-me,
como os vermes. Lula sairia discutindo a escalação do Botafogo, ou seu eventual
retorno a primeira divisão. Nos dias em que escrevo, ele se encontra na Síria, e hoje
havia uma notícia nesse sentido nos jornais. Em dois frontões do US Department of
Commerce, anotei duas frases: “Commerce defies every wind outrides every tempest
and invades every zone”, Bancroft, e “The Patent System added the fuel of interest to
the fire of genium”, Lincoln.


Na minha atual etapa de compreensão da tragédia nacional, tenho advogado a
reconstrução do Estado como premissa para oferecer a possibilidade de futuro, mas,
depois dessa viagem, trago a sensação de que nunca conseguimos construir uma Nação,
mas sim técnicos de futebol, carnavalescos e outras exuberâncias.  


Num final de semana, ao tentar visitar a Casa Branca, fui impedido por uma passeata
de vermelhos e afins pedindo a volta das tropas do Iraque. São parecidos com os
nossos, mas muito mais bem equipados, com câmeras etc. e alguns tipos mais
exóticos. Mila Kette me contou que lá, diferentemente daqui, eles têm que pagar uma
bela grana para se manifestar. Uma jovem americana, provavelmente da maioria
silenciosa, ao ver um dos cartazes, virou-se para seu amigo e, rindo muito, disse: ”Olha
aquilo lá, que engracado!” Em Miami, almocei com eles(!), compulsoriamente, é lógico.
A Polícia me impediu de cruzar para a trivial “Picanha na Brasa” e, tendo que retornar,
me deparei com a turba faminta em busca de pão; por acaso, comemos pão sírio! Que
pena ver aquela juventude tão mal-informada, excetuando-se as cobras criadas, é claro.

Miami, Florida - Modifiquei o plano de viagem de forma a estar em Miami durante o
evento da ALCA ali, de 17 a 21 de novembro. Como outsider, só pude observar o
comportamento da mídia e da população da downtown, onde me encontrava, e onde
estava o epicentro do acontecimento.

A partir do dia 15, já se notava uma movimentação inusitada das forças policiais. O
clima era de preparação para uma guerra. Depois da experiência de Seattle, na Italia e
em Cancún, as autoridades americanas se preparavam para evitar algo similar. Já
então, não se encontravam os jornais nas suas clássicas machines. Elas haviam sido
removidas. A Polícia da Florida e os Federais preparavam-se com afinco. A cada novo
dia, novas medidas. Naquele clima febril e saudável da normalidade dos pequenos
comércios, havia enorme indignação. Como podiam aqueles anarquistas destruir uma
semana inteira de bons negócios? Os mais lúcidos achavam que a enorme
movimentação policial e o clima de guerra, com o fim de evitar o pior, era válida.

Nosso bom Riggio chegava a Miami para participar, como intérprete inglês/português da
cimeira, como dizem os portugueses. Para essas ocasiões, na verdade, são mais usadas
palavras summit ou cumbre, em espanhol. Durante dois dias, tomamos café-da-manhã
juntos em seu hotel. No terceiro, isso já não foi possível. Seu hotel já se encontrava na
zona impenetrável. Felizmente, André, do IL-RJ, que já havia chegado e se encontrava
no mesmo hotel, o acompanhou.       

A "batalha" se aproximava. Os dias 19 e 20 seriam os mais críticos. Comerciantes da
downtown, a maioria dentro de galerias, foram aconselhados a fechar suas portas. Katz,
um negro de Serra Leoa, se negava. No dia 19, amanheci com helicópteros por toda
parte e sequer podendo comprar meu habitual suco de laranja num mercadinho próximo.
Os manifestantes vinham, em colunas, de vários pontos da cidade, convergindo para a
downtown. A maioria dos restaurantes estavam fechados. Aparentemente, quando estas
colunas começavam a se encontrar, observei uma operação policial que me fez lembrar
o glorioso 11 de setembro de 1973, no Chile. Hoje, depois de 30 anos de maturidade,
consigo ver que isso me produziu alguma angústia, pois naquele então, estava do outro
lado. Enormes vans (kombis reforçadas) cheias de policiais de negro, deitados, com as
portas abertas, passavam uma atrás da outra em alta velocidade. Os automóveis
também, com portas abertas do lado do passageiro. Que treinamento! O resultado foi
magnífico para a Polícia de Miami: sequer uma única gota de sangue derramada e
apenas pouco mais de 200 pessoas presas. Tudo isso, apesar dos provocadores
profissionais. A “batalha” havia sido ganha.

Fui visitar nossos caros amigos cubanos na Cuban American National Foundation. Lá,
estive com Mariela Ferreti, extremamente gentil, e com José García. Como pressentia,
eles estão demasiadamente voltados para a questão cubana para poder olhar para o
resto da América Latina. Compreende-se, afinal, foram os que mais sofreram e ainda
sofrem nas garras d´El Comandante Fidel.


Fui até a Florida International University, na região oeste da cidade, encontrar-me com
o professor de ciência política Timothy J. Power. Sendo ele fluente em português, a
conversa fluiu muito bem. Presenteou-me com seus livros: A Social-Democracia no Brasil
e no Mundo e Democratic Brazil, com o Comandante Cardoso sorrindo na capa
(momentos de glória da Nomenkatura política brasileira. Durante meu almoço, na praça
de alimentação, pude observar a alegria daquela juventude. O que mais me
impressionou foi uma linda sala de jogos (mesas maravilhosas de snooker)  junto aos
restaurantes.   

Estive na Universidade de Miami com o professor Keith Rosenn, como relatei no inicio
deste texto. Só devo adicionar às minhas palavras seu orgulho em mostrar-me as
instalações de sua universidade, privada, diga-se de passagem. Numa das piscinas em
que havia maior movimentação, ele apontou e disse: “Deve ser nosso time treinando”.

Todos os estudiosos do Brasil aqui citados, fluentes em português, exceto William
Perry, de ascendência portuguesa, são casados com brasileiras. Fica, pois, aqui
registrada, nossa dívida com nossas mulheres.