| As Viagens Presidenciais (2004) Josino Moraes Latin America Economic Researcher www.josino.net email: josinomoraes@hotmail.com As repetidas viagens de Lula Cardoso da Silva ao exterior durante 2003 foram um grande estímulo à compreensão de novos aspectos da maquinação da idiotia nacional pelos denominados marqueteiros políticos – eufemismo para manipuladores da idiotia nacional. Por quê? Observando a história recente do país, essa questão de inúmeras viagens do primeiro mandatário ao exterior – dignas de registro no Guiness Book of Records – , só surgiram a partir de 1995 com o advento ao poder de um scholar da nomenklatura acadêmica da USP, a mais importante universidade do país. O caminho foi aberto por idéia de Nizan Guanaes, ou do próprio FHC, como uma forma de aumentar, manter ou estancar a queda de popularidade do primeiro mandatário. Até então, o país não tinha nenhuma tradição de tão freqüentes viagens presidenciais ao exterior. Como funcionava a coisa durante a octaectéride fernandista? O Itamaraty simulava algum tema de alguma ou absolutamente nenhuma importância e contatava alguma universidade de renome internacional – London School of Economics, Bolonha, Harvard, etc -, e ajeitava um novo título de doutor honoris causa. Logo mais, convocava-se a imprensa, sobretudo a TV-Globo e congêneres – os Big Brothers do Estado brasileiro - para a cerimônia. Qual a idéia? Cavilar o sentimento de idiotia nacional quando ele se manifesta na sua faceta de demência: O Brasil é o maior país do mundo, único penta-campeão do universo etc. Cito a seguir apenas dois recentíssimos exemplos. O Sr. Carlos Lessa, presidente do BNDES, disse no dia 12/12/03:" O BNDES coloca o BID para trás e se aproxima do Banco Mundial, como o segundo maior banco de desenvolvimento no mundo." O Sr. Gilberto Gil, ministro da cultura petista, disse no dia 24/01/03: "Ele (Lula) quis dar ao Brasil e ao mundo esta visão aberta, já que hoje Lula é um estadista, um líder mundial. Ou o mundo se brasilifica ou o mundo se nazifica. É preciso escolher." A melhor definição de demência que conheço é a de Napoleão Bonaparte: "O que caracteriza a demência é a desproporção entre os propósitos e os meios". Ou, particularizando a idéia para o caso brasileiro, nas palavras de Ricardo Bergamini: "O Brasil é um conjunto vazio que acredita ser o centro do universo". A idéia era explorar esse aspecto, e como funcionava! Amigos me diziam que, pela primeira vez, o Brasil tinha na sua história um verdadeiro estadista como presidente. De fato, ainda hoje, muitos empresários, em fóruns, diante dele, suspiram fundo e exclamam: Só resta uma palavra: saudades. Nunca a medíocre imprensa local preocupou-se em pesquisar a origem do título de doutor honoris causa. Dada a facilidade proporcionada atualmente pela internet, descobri que nos Estados Unidos uma simples lavadeira, que doou a poupança de toda sua vida à universidade, foi agraciada com tal honraria. No Brasil, no entanto, lançava-se a idéia que a honraria era devida exclusivamente aos grandes feitos intelectuais. No caso, nosso "herói" havia escrito, assim como outros inúmeros "perfeitos idiotas latino-americanos", ensaios sobre a teoria da dependência, invenção de um alemão de nome André Gunder Frank e versão light da teoria leninista do imperialismo. Em Moscou, por ocasião da entrega de seu doutor honoris causa pela Universidade de Moscou, fizeram uma edição russa com poucos exemplares, obviamente, mas folheada a ouro ou algo similar, de sua obra. Naquelas ocasiões, o ex-presidente aparecia com togas – capas – negras ou vermelhas, capelos – toucas - negros ou laranjas, e outro elemento sobreposto que não sei qualificar. Em Salamanca, jovens irônicas gritaram:"Lindo!, lindo!". A impressão no vídeo era fantástica. Após o Jornal Nacional e por semanas a fio, o brasileiro dormia orgulhoso de seu país. O desemprego aumentava, mas isso não vinha à tona. Quão grave é o papel de uma mídia idiotizada. Nessa batida, o "ilustre" presidente conseguiu nada menos que 20 títulos. Só aceitou a honraria de uma universidade nacional no penúltimo mês de governo. Enviei o fato ao Guiness, mas não me responderam. Eles adoram, quase sempre, coisas positivas, grandes feitos, não aspectos hilários como o aqui relatado. Apesar que, recentemente, o Diário Oficial brasileiro, com mais de cinco mil páginas, entrou para o Guiness como o maior tablóide do mundo. Morrerei, de qualquer forma, com a convicção que Fernando atingiu o record absoluto nessa matéria. Assim que foi eleito o atual presidente, alguns pretensos – amadores, a bem da verdade -- , manipuladores da idiotia nacional se apressaram em agendar títulos similares para Lula. A imprensa, na época, noticiou que já haviam acertado com duas universidades do nordeste. Mas o novo manipulador-mor, Duda Mendonça, percebeu de imediato que não era esse o melhor caminho. Seu raciocínio provavelmente foi: Como montar cenários similares com um homem que sequer domina seu próprio idioma? Göethe, em alguma oportunidade, afirmou que o homem que sabe apenas seu próprio idioma, não sabe nenhum! No entanto, no dia 20/3/04, o Estado noticiou que, no segundo semestre de 2004, Lula receberia a honraria de nada menos que de uma universidade americana! A coisa teria sido acertada através de um professor brasileiro da Universidade de Duke, Carolina do Norte. O Itamaraty deveria estar se desdobrando para concatenar uma foto do atual "herói" ao lado de Bush, quando, como se já não bastasse o incômodo do affaire Miro-Zé Dirceu, surge a bomba da reportagem de Larry Rohter no NYT, no dia 9/5/04! Decididamente, creio, esse projeto será arquivado. Provavelmente, elaborando o pensamento um pouco mais, Duda percebeu que o pulo do gato poderiam ser apenas as viagens presidenciais. E assim se fez. No seu primeiro ano de governo, ele visitou 26 países, 12 a mais que seu antecessor no mesmo período. Uma charge da Folha a respeito dessa fúria itinerante, mostrando-o dentro de um avião, foi ilustrada com o seguinte diálogo: "- Sim, presidente, encontraram indícios de água em Marte, mas é melhor deixarmos isso para uma outra viagem. De mais a mais, ninguém aqui deve ter trazido calção de banho." Para piorar nossa sina, ele encomendou um airbus personalizado que consumiu nada menos que 75% do investimento público até quase o final do primeiro trimestre de 2004. Se, depois do 13 de fevereiro (affaire Miro-Zé Dirceu) e do 9 de maio de 2004 (a bomba detonada por Larry Rohter), essas viagens se tornarem inviáveis, do ponto de vista da manipulação da idiotia nacional, teremos a sucata mais cara da história do país! Provavelmente, do mundo! O flamejante Air Force Fifty One! Duda já havia dado mostra de sua excepcional capacidade quando mostrou à mídia a cadelinha Michele, do casal Lula e Marisa. Nunca antes, um animal doméstico de estimação de um presidente brasileiro tinha vindo à tona. A mídia americana, nos seus momentos de descontração, explora esse lado familiar do presidente. Duda, dado o lamentável estado mental da população, nas palavras de Euclydes da Cunha, levantava e provava a equação Lula=Bush. Na verdade, minha mãe, uma senhora de 80 anos, ao ver certas cenas na televisão exclamou: "Filho, o Lula é maior que o Bush!". Ou seja, a mídia consegue montar cenários que induzem à conclusão pela sociedade da desigualdade Lula- Bush. Duda montou um cenário diferente para nosso gárrula anão-de-jardim. Ele criou a figura de um Zé-Prequeté, um Zé-Mané, similar a 98% da população brasileira, versão atual de Jeca- Tatu; uma simples caixa de ressonância de Fátima Bernardes. O arquétipo que se orgulha de falar apenas o português – mal e porcamente –, porém, ultra "simpático". Nas suas viagens pelo país ou em Brasília, ele simula tocar bumbo, violão, guitarra, violino, simula destrinchar leitão, sobe em skate, veste calça típica da Oktoberfest, bebe cerveja, exibe novos óculos escuros para o presidente do BID, levanta braços de bispos da CNBB, come e serve fartos churrascos, debate problemas de cachaça e vitelo, anuncia "o fim da incerteza", veste camisas de diferentes times de futebol, põe e tira infinitos bonés, aprende a escovar os dentes com um modelo dentário nas mãos, elabora metáforas futebolísticas e, last but not least, joga futebol! Quando machucado, vira juíz de pelada entre ministros, governadores, etc. Momento supremo da exploração da idiotia nacional. Daqui para frente, de todas as estripulias citadas acima, temos certeza que não mais beberá cerveja em público e tampouco debaterá controvérsias sobre diferentes cachaças! Ave, Larry! Enquanto isso, o desemprego aumenta, o MST invade exigindo mais impostos a fundo perdido e a guerra local aumenta de intensidade; e a mídia reporta todas aquelas imbecilidades com grande destaque, facilitando o sucesso do trabalho de Duda, que dá continuidade ao processo de idiotização da sociedade brasileira. No seu último tour de importância – abstenho-me de suas freqüentes visitas à seu alter ego, Chavez – , Lula foi aos países árabes – Líbano, Síria, Líbia, Egito, Palestina – e à Índia. Anteriormente, esteve na Àfrica. Maílson da Nóbrega, em sua coluna semanal no jornal O Estado de São Paulo, refrescava a memória do país para os riscos fiscais de tal diplomacia, relembrando os enormes prejuízos causados por essas aventuras no ciclo militar. Nessas ocasiões, ele é mostrado com grande destaque entre as autoridades visitadas, de forma a realçar a "importância e simpatia" que o Brasil e seu novo presidente despertam. Lula se autodelega a pecha de nosso primeiro mascate internacional. Na Líbia, pessoas foram convocadas a aplaudir o visitante pelo ditador local. No Egito, a mídia brasileira explorou o fato que apenas um outro brasileiro, D. Pedro II, havia visitado o país – a bem da verdade, sequer em visita oficial. Lula e Marisa, ela com esplêndidos chale e echarpe azuis esvoaçados à mercê do vento, foram mostrados ao país, tendo como fundo uma magnífica pirâmide egípcia. No Líbano, o presidente, demonstrando algum conhecimento da cultura popular brasileira , ou instruído por assessores, chamou os libaneses de "brimos". Em seguida, desembainhou uma enorme espada e cortou um bolo com bandeiras do Brasil e Líbano, com toda aquela destreza de quem conseguiu perder o minguinho num torno mecânico, tarefa quase impossível, como dizia um saudoso mecânico amigo. Que perfeição de montagem! Quanto a perda do minguinho, uma dúvida sempre restará aos poucos homens que dirigem, ou dirigiram, diretamente a produção fabril no país: teria ela sido realmente acidental? Há casos, em que operários se machucam para ganhar a estabilidade no emprego! Quem sabe...Por que não até por uma aposentadoria precoce? Essa é a herança de uma excrementosa legislação fascista nas relações de trabalho, e suas conseqüências na destruição do capital social do país. Agora, los boletos a Chillán, como diria o poeta chileno, ou melhor, à China. Afinal, já estamos quase na metade do ano e esta será a primeira viagem ao exterior. É, realmente, o Air Force Fifty One corre o sério risco de virar um reluzente sucatão. |